Há algo profundamente inquietante acontecendo na psiquiatria contemporânea — e não diz respeito apenas ao aumento do sofrimento psíquico, mas à forma como temos tentado nomeá-lo.
Vivemos na era da resposta imediata. O sofrimento precisa ser rapidamente traduzido em um diagnóstico, preferencialmente claro, validado socialmente e, sobretudo, reconhecível. O nome passou a funcionar como alívio. Como pertencimento. Como identidade.
Mas há um problema: a psiquiatria não foi feita para funcionar na lógica da pressa.
O diagnóstico psiquiátrico, conforme estabelecido pelos manuais classificatórios como o DSM-5-TR (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5ª edição, texto revisado), é um processo clínico que exige critérios bem definidos, avaliação cuidadosa, exclusão de diagnósticos diferenciais e análise do impacto funcional. Não se trata de um checklist superficial, tampouco de uma inferência baseada em traços isolados.
No entanto, é exatamente isso que temos visto.
Uma prática crescente de diagnósticos rápidos, muitas vezes baseados em fragmentos de comportamento, relatos pontuais ou identificação subjetiva do paciente com conteúdos disseminados em redes sociais. Profissionais insuficientemente treinados — ou capturados por uma demanda social por respostas rápidas — passam a oferecer rótulos em lugar de investigação.
E entre esses rótulos, um tem se destacado de forma expressiva: o Transtorno do Espectro Autista.
Segundo o DSM-5-TR, o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) requer a presença de déficits persistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos, associados a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Além disso, esses sintomas devem estar presentes desde o período do desenvolvimento inicial, ainda que possam se tornar mais evidentes posteriormente, e devem causar prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
Ou seja: não se trata de um diagnóstico baseado em traços isolados.
Dificuldade social não é, por si só, autismo. Preferência por rotinas não define autismo. Hipersensibilidade sensorial não é exclusiva do espectro. Interesses intensos tampouco.
Esses fenômenos atravessam múltiplas condições psiquiátricas — transtornos de ansiedade, transtornos de personalidade, transtornos depressivos, quadros relacionados a trauma, além de variações do próprio desenvolvimento humano. O erro não está em reconhecer tais características, mas em reduzi-las a uma única explicação diagnóstica, sem a devida investigação.
A ampliação dos critérios diagnósticos ao longo das revisões do DSM, especialmente com a unificação de categorias anteriormente distintas sob o espectro autista, trouxe ganhos importantes em termos de reconhecimento clínico. No entanto, também ampliou zonas de sobreposição diagnóstica, exigindo ainda mais rigor do clínico — não menos.
Paradoxalmente, o que se observa é o oposto.
O diagnóstico, que deveria ser o resultado de um processo, tem sido utilizado como ponto de partida. Nomeia-se primeiro, compreende-se depois — quando se compreende.
E isso tem consequências.
Um diagnóstico mal estabelecido não apenas falha em explicar o sofrimento do paciente, como pode direcionar inadequadamente o tratamento, gerar expectativas irreais e, sobretudo, cristalizar uma identidade que nem sempre corresponde à complexidade do sujeito. O rótulo passa a organizar a narrativa de si, limitando possibilidades de elaboração e transformação.
Estamos, de certa forma, trocando complexidade por alívio imediato. E isso tem um custo clínico alto.
A psiquiatria não pode se tornar uma prática de etiquetagem rápida. Não pode ceder à sedução de respostas fáceis para fenômenos difíceis. Nosso compromisso não é com a rapidez, mas com a precisão. Não é com o conforto imediato, mas com a verdade clínica possível.
Isso implica sustentar o tempo da dúvida. Realizar diagnóstico diferencial de forma criteriosa. Revisar hipóteses. E, sobretudo, ter a coragem de dizer: ainda não sabemos.
Em uma sociedade que exige nomes, talvez o maior ato de responsabilidade seja, justamente, resistir à pressa de nomear.
Porque, em psiquiatria, quando o diagnóstico vem antes da compreensão, o risco é que ele deixe de esclarecer — e passe a adoecer.
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Dra. Fernanda Simines Nascimento é médica psiquiatra (CRM-SP 198.541 / RQE 124.287)
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