Brasil

Voto como ritual cívico enfrenta crise com ‘novo mundo’ e fake news

O voto é direito e ferramenta do cidadão na defesa da democracia nos dias atuais (Foto: Arquivo/MN)

O ato de votar como rito cívico enfrenta desafio em cenário marcado por mudanças sociais que envolvem dinâmicas impostas pelas redes sociais e a insatisfação com o capitalismo, na opinião de especialistas.

Ao mesmo tempo, as eleições 2024 são, no que tange à relação dos cidadãos com o voto, prévia para o próximo pleito nacional e devem ser observadas com atenção redobrada a respeito dos riscos envolvendo fake news e abstenção.

Para especialistas ouvidos pela Folha, uma das soluções para enfrentar o cenário de aumento do descrédito em relação à importância do voto é o maior acesso à compreensão de como se dá o processo eleitoral, percebido por eles como importante rito cívico.

Segundo Raquel Cavalcanti Machado, professora de direito eleitoral e teoria da democracia da UFC (Universidade Federal do Ceará), o ato de votar decorre de longo ritual feito pela Justiça Eleitoral e o eleitor.

Como o gesto de acender uma vela e fechar a porta antes de rezar, o de apertar a tecla “confirma” nas urnas é precedido por um conjunto de ações imbuídas de valor simbólico que reconhece a relevância do voto.

“O voto é instantâneo, mas decorre de procedimento que leva tempo para ser maturado, tanto pelo eleitor como pelas instituições”, afirma Raquel.

LISURA

Para que os cidadãos possam votar, uma série de procedimentos que configuram o ritual do voto precisa ocorrer: é necessário distribuir as urnas, organizar as seções, mobilizar os mesários, dentre outras ações centrais para garantir a lisura do processo.

O eleitor também tem seu rito, que pode passar por reflexão sobre quais pautas considerar e em que candidatos votar, escolha soberana que é preservada pela confidencialidade das urnas, diz Machado.

Para Gabriel de Antonio, doutor em ciência política pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e professor de sociologia do IFSP (Instituto Federal de São Paulo), o ritual cívico do voto enfrenta crise relacionada com transformações recentes no capitalismo, que não tem conseguido dar conta de demandas importantes da população, como a inserção no mercado de trabalho.

FAKE NEWS

Dinâmicas nas redes sociais calcadas no sentimento de ódio também impactam a percepção sobre a política, diz o especialista. Ele afirma que o cenário preocupa porque pode “deformar” a vontade do eleitor nas urnas por causa da lógica belicosa e das fake news.

Por isso, afirma ser fundamental o acesso dos cidadãos a fontes de informação diversificadas e confiáveis, somado a atenção redobrada sobre a dinâmica das eleições 2024 como preâmbulo dos desafios que estão por vir no pleito nacional.

“É importante porque as eleições são elemento-chave do processo democrático. É nelas que temos o momento de formação da vontade política da sociedade civil, momento de passagem da vontade política do cidadão para o processo político institucionalizado através dos partidos”, afirma.

ABSTENÇÕES

Para Gabriela Martins, doutora em sociologia pela USP e professora colaboradora do IUPERJ (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), da Universidade Candido Mendes, o ritual do voto enfrenta desafio que se vê refletido nos altos índices de abstenção identificados nas últimas eleições.

Segundo ela, o cenário faz parte de um contexto no qual os próprios valores da democracia têm sido colocados em xeque por grupos de extrema direita.

Assim como os outros especialistas, Martins afirma ser importante que a Justiça Eleitoral reforce a divulgação de informação sobre a importância do voto como rito democrático. Diz também que são necessários o combate às fake news e o incentivo à participação de grupos minoritários, como mulheres e negros.

De acordo com Raquel Cavalcanti Machado, essa mobilização é essencial para incentivar políticas de afeto que façam as pessoas se engajarem com transformações sociais por meio das eleições. “O senso de responsabilidade desperta o afeto, que tem relação com boas decisões e é importante para defender a democracia”, afirma.

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Folhapress

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