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Tragédia das chuvas: a chave para evitarmos dramas assim

Coluna desta semana do editor-chefe do Marília Notícia, Gabriel Tedde, concentra holofotes sobre a ganância e o egoísmo alimentadores da fatalidade durante graves situações de crise, chancelada pela fala do atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos): “Estão saqueando caminhonetes com mantimentos doados. Coloquei o Choque (Batalhão da PM) para acabar com isso”.

Tragédia sobre tragédia.

Pior: a Defesa Civil do Estado de São Paulo alertou previamente, entre sexta-feira (17) e domingo (19), sobre a possibilidade de chuvas intensas e contínuas, acompanhadas por descargas elétricas, fortes rajadas de vento e granizo, com destaque e atenção ao Litoral Norte que poderia registrar acumulado de até 250mm e de até 150mm para as regiões da Baixada Santista, Serra da Mantiqueira e Vale do Ribeira.

As informações e as imagens dos danos e do sofrimento nas cidades litorâneas são claras e refletem as demais: extremos climáticos cada vez mais frequentes somados à crônica vulnerabilidade social e à falta de liderança política forte e posicionada, desembocando em negligência e sempre aguardando a manifestação dos órgãos de controle para que o peso da impopularidade recaia sobre outros ombros.

Pagaremos caro pelo desleixo.

Pode piorar?

A calamidade que desabou sobre o litoral Norte e que deixou ao menos 48 mortos entra para a história com o maior registro de volume de chuvas do Brasil – 682 mm. Agrava-se por não ser novidade: há cinco décadas e meia (55 anos!), Caraguatatuba viveu outra catástrofe sem precedentes, na qual parte da Serra do Mar deslizou, matando 450 pessoas e deixando três mil desaparecidos.

Somente nos últimos três anos, a Prefeitura de São Sebastião foi 37 vezes condenada judicialmente por “omissão histórica” ante a regularização de áreas ocupadas próximas à Serra do Mar.

A pergunta que fica: seria possível evitar ou, ao menos, amenizar tamanha catástrofe?

Sim, seria.

As prefeituras podem criar, manter e potencializar a chamada Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil (COMPDEC), órgão composto por servidores municipais devidamente remunerados atuantes em campo, analisando áreas de risco, planejando e executando campanhas educativas, além de trabalhar diretamente na resposta e recuperação das áreas atingidas.

Marília possui a dela: em 2021, a retiramos da passividade e do abandono e lhe demos vida própria, inclusive com a seleção de profissionais adequados e treinados junto aos entendedores do assunto: Defesa Civil do Estado e Corpo de Bombeiros da Polícia Militar.

Criamos sede própria facilmente identificável pelos munícipes – avenida Tiradentes, 1.073, próxima à rotatória do Supermercado Tauste.

Mais: organizamos rede de contatos e abrimos canais diretos, integrando representantes locais aos de outros municípios e aos da Casa Militar, dentro do próprio Palácio dos Bandeirantes – o coração da Defesa Civil estadual.
Desta integração, recebemos veículo e equipamentos operacionais.

Paralelamente, geramos voluntariado altruísta, profissionais das diversas secretarias municipais, do Tiro de Guerra, da Polícia Militar Territorial, Ambiental e Corpo de Bombeiros, ativos intangíveis de informações relevantes com base em colaboração e amparo mútuo.

Fortalecemos canal de socorro imediato pelo telefone 193 (Corpo de Bombeiros) e criamos atendimento via WhatsApp pelo número (14) 9 8194-1828 [clique aqui para iniciar uma conversa], focado em ocorrências resultantes de chuvas torrenciais, calamidades, grandes incêndios e outros serviços de assistência.

O principal: treinamos líderes vocacionados ao espírito humano.

Algum resultado?

Durante o período de chuvas ao longo de diversos anos, desmoronamentos ameaçavam a vida e a integridade física dos usuários da estrada vicinal Danilo Gonzales, entre o município de Marília e o distrito de Avencas.
Risco, portanto, previsível.

Com a nova postura das diversas equipes, capitaneadas pelo COMPDEC agora empoderado, abriu-se diálogo técnico com engenheiros e geólogos da Rede Estadual de Emergências que se deslocaram imediatamente ao local.

Conjuntamente, planejamos e agimos no contingenciamento dos riscos imediatos e direcionamos recursos estadual e municipal: hoje, o desmonte, a adequação e a eliminação total de riscos ligados a desmoronamentos é realidade.

Sim, é possível evitar ou, ao menos, amenizar catástrofes: com pessoas humanamente sensíveis, detentoras de conhecimento certo, recursos bem aplicados e respeito ao cidadão.

Pode-se mais: investir em treinamentos integrados; mapear constantemente áreas de riscos (o município de Marília possui em torno de 20 assentamentos precários, além de cortiços e núcleos habitacionais desagregados); priorizar e resolver a situação desta população indefesa e melhorar a eficácia do sistema de comunicação, alarme e abandono em situações reais.

A chave para se prevenir tragédias, para se garantir o bom socorro e o consequente retorno à normalidade está numa defesa civil ativa e engajada, na qual toda a sociedade – governos, empresas e sociedade civil organizada – delegue liderança e se coloque à disposição de peito aberto, valorizando conhecimentos, habilidades e atitudes adequadas, seguidas de bom planejamento, de decisões coerentes, de ações assertivas e simples e respeitosas ao bolso do contribuinte.

O principal: que olhe para o flagelo humano como motor de limpeza moral em um mundo potencialmente mais igualitário, sustentável e acessível a todos.

Sucesso. Sempre.

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Marcos Boldrin
Ex-secretário municipal do Meio Ambiente e da Administração. Urbanista, arquiteto e coronel da reserva
@marcosboldrin
marcosboldrin@outlook.com

Marcos Boldrin

Marcos Boldrin é coronel da reserva, urbanista e arquiteto de formação, e ex-gestor público estadual e municipal

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