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O presente do israelense desconhecido no Mar Morto

Mar Morto, onde você boia mesmo se não sabe nadar (Foto: Ramon Barbosa Franco)

Estava no Mar Morto num hotel chamado Daniel. Queria comprar uma lembrança para mim, então, me dirigi até a lojinha de souvenirs. Também queria encontrar a famosa lama do Mar Morto, que muitos dizem ser o que há de mais próximo do que se convencionou ser a “fonte da juventude”.

Que a lama e o enorme lago de água salgada são extraordinários, disso ninguém duvida. Afinal, o Mar Morto, em Israel, é o ponto mais baixo da Terra e mesmo que você não saiba nadar ou tenha medo de água, ali não existe erro: você boia de todo jeito. Com tanto sal na água, a flutuação é imediata. Mas, um aviso: ao entrar nas águas salgadas do Mar Morte você lembrará de toda feridinha, todo e qualquer machucado que tiver vai requerer um pouco da sua atenção.

Como era a minha despedida do Mar Morto, quis reunir alguns souvenirs para trazer ao Brasil e presentear minha família e amigos.

Chego na lojinha e a dona é uma senhora esguia, de cabelos curtos, que me lembrava uma bailarina clássica aposentada. Descubro que seu nome é Laura e que não é israelense, mas sim cubana. Ela descobre que sou brasileiro e de imediato pergunta sobre a situação do meu país-natal.

Lamento que a Nação do Cruzeiro do Sul sofre com mais de 33 milhões de brasileiros perecendo com a fome. “Hay hambre, muy hambre en mi pueblo brasileño, y una dolor muy grande”, informei dona Laura. “Hablamos” de nosso Brasil e também de Cuba, país-natal de minha nova amiga.

Havia anos que dona Laura não olhava o Mar do Caribe ou o Golfo do México, e sim a visão ocre e desértica do Mar Morto. Cuba dona Laura não via nem em pensamento, me disse. Decido comprar um pin com as bandeiras do Brasil e Israel e, neste momento, não percebo que um senhor nos observava. Era um turista israelense que prestou atenção na minha conversa, principalmente quando me referi ao Brasil.

Quando decido pagar o broche, que iria custar dois ou três dólares, não me recordo ao certo, o israelense desconhecido diz, em inglês. “No, no, no, no: my gift for you. Gift for you. Gift, please”. Aceito, mas antes pergunto: “Por que o senhor está me presenteando?’” E ele responde – o que intuitivamente pensava mesmo saber “By Osvaldo Aranha!”.

Por Osvaldo Aranha (1894-1960), brasileiro diplomata que no Estado Novo fora ministro da Justiça do presidente Getúlio Vargas, mas que na década de 1940 tornara-se chanceler brasileiro e, no ano de 1948, mais exatamente em maio daquele ano, presidiu a Organização das Nações Unidas, a ONU, quando da assembleia-geral que criou o Estado de Israel.

O chanceler brasileiro Osvaldo Aranha é reverenciado até os dias de hoje em Israel. E assim, um israelense desconhecido – ele deixou a lojinha sem falar seu nome logo após que recebi o presente – me contemplou com uma lembrança que trouxe da Terra Santa ao Brasil.

Ramon Franco

Ramon Barbosa Franco é escritor e jornalista, autor de diversos livros, entre eles ‘A próxima Colombina’

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