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Luta antimanicomial: entre a proposta e a realidade

Dra. Fernanda Simines Nascimento é médica psiquiatra (Foto: Divulgação)

A história da psiquiatria é, em muitos momentos, a história de como a sociedade lidou com aquilo que não conseguia compreender.

Os manicômios surgem, sobretudo a partir dos séculos XVIII e XIX, como espaços de isolamento. Mais do que tratamento, cumpriam uma função de contenção social: retirar do convívio aqueles que destoavam da norma — pessoas com sofrimento psíquico, mas também indivíduos considerados “inadequados” à ordem vigente.

O filósofo Michel Foucault descreve esse movimento como parte de um processo maior de controle e organização social. A loucura, nesse contexto, não era apenas uma questão médica, mas também moral e política.

Com o tempo, tornou-se evidente que o modelo manicomial, centrado no isolamento e na institucionalização prolongada, produzia mais exclusão do que cuidado. Foi nesse cenário que surgiram propostas de reforma.

Na Itália, o psiquiatra Franco Basaglia liderou um movimento que propunha o fechamento dos hospitais psiquiátricos e a substituição por uma rede comunitária de cuidado. A chamada Reforma Psiquiátrica Italiana defendia que o tratamento deveria ocorrer em liberdade, com foco na reinserção social e no respeito à dignidade do paciente.

A proposta era, sem dúvida, revolucionária — e necessária.

Mas sua implementação revelou um ponto fundamental: desinstitucionalizar não é, por si só, cuidar.

Sem uma rede estruturada, com serviços territoriais robustos, equipes capacitadas e políticas públicas consistentes, o risco é substituir o isolamento institucional por um outro tipo de abandono — mais silencioso, porém igualmente grave.

No Brasil, a luta antimanicomial trouxe avanços importantes, como a valorização dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e a tentativa de construir um modelo mais humanizado de cuidado. No entanto, a realidade ainda está distante do ideal proposto.

Em muitos contextos, os serviços são insuficientes, as equipes estão sobrecarregadas e a demanda ultrapassa a capacidade de acolhimento.

E é nesse ponto que surge uma confusão perigosa.

Defender o fim dos manicômios não significa negar a gravidade dos transtornos mentais. Não significa abrir mão de tratamento, de medicação ou de acompanhamento especializado.

Pelo contrário.

Na prática clínica, o que se observa é um desejo constante — por parte dos profissionais de saúde mental — de oferecer cuidado de qualidade: pacientes estabilizados, bem medicados, acompanhados e, sempre que possível, reinseridos em suas rotinas e vínculos sociais.

Mas isso não se constrói apenas com boa vontade individual.

Exige estrutura.

Exige políticas públicas consistentes.
Exige serviços bem organizados.
Exige equipes suficientes para sustentar o cuidado ao longo do tempo.

Sem isso, a desinstitucionalização corre o risco de se transformar em desassistência.

Entre o hospital e a liberdade, existe um caminho que precisa ser construído com responsabilidade.

A saúde mental não se sustenta em extremos.

Ela exige equilíbrio entre cuidado, técnica e presença.

Entre excluir e abandonar, a psiquiatria precisa sustentar o cuidado.

***

Dra. Fernanda Simines Nascimento
Médica Psiquiatra

Fernanda Simines Nascimento

Dra. Fernanda Simines Nascimento formou-se pela Faculdade de Medicina de Marília (Famema), onde também concluiu sua residência médica em psiquiatria.

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