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O anverso, reverso e o metaverso

Coluna
30 de março de 2022

A existência de mundos paralelos sempre foi algo que instigou e encantou a humanidade.

Num primeiro momento, pode se atribuir essa pluralidade de mundos à religião, que defendia a existência de um mundo terreno, destinado aos seres humanos, e outro no qual habitavam os deuses.

Essa divisão fica clara na Grécia, na qual enquanto os homens conviviam no espaço físico e material das polis, o Olimpo era destinado à morada dos deuses, numa interessante interação que acabou por gerar semideuses e algumas das principais inovações experimentadas pela humanidade, como o fogo que teria roubado de Zeus por Prometeu.

Já em Roma, com o surgimento do Cristianismo, Santo Agostinho, em seu livro Cidade de Deus, redefine essa dualidade de mundos, defendendo a existência de uma “Civitas Dei” ou “Civitas coelestis”, destinada aos herdeiros de Abel, humanos libertos do pecado e em peregrinação ao céu, e a cidade terrena (ou “civistas diaboli”), onde vivem os descendentes de Caim, um mundo pagão marcado pela falta de fé. Nas palavras de Antonio Carlos Wolkmer, “As duas cidades existem, lado a lado, e continuarão até o final dos tempos, quando então a cidade de Deus subsistirá para constituir a eternidade dos santos”.

Todas essas lições acabam sendo apreendidas pelo Direto e sua história, razão pela qual os criadores das normas jurídicas passam a defender que o Direito se encontra no mundo do “dever ser”, com o fim de regulamentar os atos dos humanos no mundo do “ser”.

Com o início da corrida espacial, esses mundos paralelos passaram a ser imaginados em outros espaços físicos, em diferentes planetas do universo, defendendo que os terráqueos não estariam sozinhos na imensidão.

Essa dualidade (ou pluralidade) de mundos acaba ganhando novos contornos com o surgimento do metaverso, termo utilizado para nominar um espaço virtual nos quais os seres humanos podem interagir por meio de avatares e utilizando-se de meios tecnológicos.

Nesse sentido, o surgimento dos dispositivos vestíveis (wearables) permitiria às pessoas desfrutar de novas experiências sensitivas no mundo digital tal qual ocorre no mundo real. Cheiros, sabores, calor, frio e outras sensações passariam a ser captadas virtualmente e convertidas em reações experimentadas no mundo físico.

Essa necessidade humana de adotar uma concepção plúrima de mundos, parece-me, surgiu de um grande descontentamento com a realidade vivida, a partir do qual, convencido de que não pode mudar  o espaço onde vive, o ser humano passa a defender, acreditar ou criar novos mundos nos quais todas as suas angústias possam ser solucionadas, onde todas as impurezas possam ser convertidas em perfeição.

Interessante essa situação, pois ao contrário de lutar para eliminar (ou mesmo reduzir) todas as iniquidades que ainda insistem em habitar entre homens e mulheres, os seres humanos optam por projetar mundos em outros planetas, como colônias em Marte, ou mesmo em espaços virtuais, como o Metaverso, nos quais a interação humana passa a exigir a utilização de dispositivos tecnológicos cada vez mais excludentes, já que colocados à disposição de um grupo cada vez menor.

Será que não seria melhor despender tempo e dinheiro para tornar o nosso mundo, o planeta Terra, um lugar melhor? Mais justo? Onde efetivamente todos possam ter direito a uma vida digna de ser vivida?

Será que não deveríamos pensar em melhorar o reverso e anverso deste mundo, antes de criarmos mundos paralelos?