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Em defesa das pessoas idosas

Quando decidi fazer meu doutorado na Espanha, ao lado de muitas dúvidas, tinha uma grande certeza: queria falar dos direitos humanos das pessoas idosas.

Parecia-me, à época, que o desenvolvimento de uma sociedade extremamente consumista, ávida por coisificar quase tudo, acabaria por condenar as pessoas idosas a viverem em absoluto isolamento, totalmente excluídas do convívio social.

Meus estudos se deram a partir de pesquisas em dados oficiais, os quais somente valorizavam os idosos que fossem arrimo de família. As pessoas recolhidas em instituições de longa permanência, por exemplo, eram completamente ignoradas, abandonadas à própria sorte e, na maioria das vezes, dependentes da generosidade e solidariedade de estranhos.

Até mesmo a expressão usada para nominar as pessoas idosas, ou seja, como aquelas que estariam na “melhor idade” me parecia inadequada. Afinal, o que seria essa tal “melhor idade”?

O tempo passou, veio a pandemia e a situação que eu imaginava que não poderia piorar, piorou.

Bastou os governantes de plantão anunciarem medidas de isolamento social para que grande parte das pessoas idosas se vissem privadas da presença frequente de familiares, nestes incluídos filhos, netos e outros parentes próximos.

Sob o pretexto de proteger os seus pais, muitos filhos deixaram de visitá-los e, o que é ainda pior, deixando de levar seus netos para visitá-los. A solidão da velhice que já era grande se tornou ainda maior. Se no começo as visitas foram substituídas por chamadas de vídeo, com o tempo até essas se tornaram escassas.

Era necessário esperar a vacinação, primeiro dos idosos, depois dos jovens para que a vida retomasse o seu curso natural.

O problema é que muitos idosos não conseguiram esperar tanto tempo e acabaram morrendo sem a oportunidade de realizar um almoço de família no domingo, como de costume.

Os que sobreviveram viram surgir uma nova realidade, na qual o distanciamento social, inicialmente imposto pelos governantes, se tornou uma máxima, pois muitos acabaram desaprendendo a viver em comunidade, em especial dentro do seio familiar.

O momento é de reflexão e, mais que isso, de ação.

Precisamos retomar projetos familiares traçados antes da pandemia e, dentro do possível, ir realizando os sonhos gradativamente. Se o contato presencial ainda não é possível em muitos casos, o contato virtual precisa ser intensificado, suprindo a ausência física com tecnologia. Afinal, a tecnologia precisa ser utilizada para aproximar as pessoas e não para afastá-las.

Cabe às pessoas idosas, por outro lado, buscar desenvolver as suas potencialidades, aprendendo novas lições nesse novo contexto. Nunca é tarde para aprender a usar um celular ou um computador, buscando novos meios de interagir em sociedade.

As pessoas idosas precisam ter reafirmada a sua importância para nossas vidas e história! E as próprias pessoas idosas precisam reconhecer essa importância e se valorizar. Comecemos, imediatamente, um círculo virtuoso que permita que todos desenvolvamos nossas melhores potencialidades.

Sei que ainda é cedo para afirmar, mas espero que possamos sair da pandemia melhor do que entramos!

Oxalá!

Jefferson Aparecido Dias

Jefferson Dias é professor em Direito da Unimar e Procurador da República

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