Marília

Avanço no debate sobre saúde mental infantojuvenil amplia atenção em Marília

Caps IJ Catavento passou a funcionar em novo endereço (Foto: Divulgação)

A saúde mental de crianças e adolescentes deixou de ser uma questão restrita aos consultórios e passou a ocupar também o cotidiano das famílias, das escolas e dos serviços públicos. Em Marília, 120 crianças e adolescentes estão atualmente em acompanhamento no Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (Caps IJ) Catavento, que registrou 176 acolhimentos iniciais entre janeiro e julho de 2026.

Os números ajudam a dimensionar uma demanda que nem sempre chega aos serviços acompanhada de um diagnóstico definido. Distúrbios do sono, tristeza persistente, isolamento social, ansiedade, agitação psicomotora, desatenção, comportamentos repetitivos e dificuldades de aprendizagem e socialização estão entre as principais queixas relatadas por pais e responsáveis durante o acolhimento.

Em casos mais graves, a equipe também identifica situações como ideação suicida, automutilação, delírios e comportamentos agressivos. A avaliação considera não apenas os sintomas, mas o contexto familiar, escolar e social de cada criança ou adolescente.

Arte: Divulgação

Acolhimento sem fila

Integrado à Rede de Atenção Psicossocial (Raps) desde 2012, o Caps IJ Catavento atende crianças e adolescentes de zero a 17 anos, 11 meses e 29 dias. Atualmente, os pacientes em acompanhamento têm entre cinco e 17 anos. Dos 120 usuários ativos, 64 são do sexo feminino e 56 do masculino.

Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, o serviço funciona em regime de porta aberta. Isso significa que o acolhimento pode ser feito diretamente, sem necessidade de encaminhamento ou agendamento prévio. De acordo com a pasta, a unidade não tem fila de espera.

Quando a avaliação técnica indica que o atendimento pode ser realizado por outro serviço da rede municipal de saúde ou de assistência social, a equipe faz o encaminhamento e o matriciamento do caso. A medida busca garantir a continuidade do cuidado.

Em 2025, o Caps IJ registrou 390 acolhimentos. Entre janeiro e julho daquele ano, foram 201. No mesmo período de 2026, foram registrados 176 acolhimentos iniciais, 25 a menos.

Estoika esteve no Caps IJ Catavento para uma exibição especial de curtas (Foto: Divulgação)

A redução representa 12,4% e, conforme a Secretaria Municipal da Saúde, está relacionada a variações no perfil da demanda e na organização da rede de atenção primária.

Quando o sintoma não conta toda a história

Para os profissionais que atuam na área, compreender o sofrimento de crianças e adolescentes exige olhar para além do comportamento apresentado no momento do atendimento. A interpretação dos sintomas, segundo essa perspectiva, precisa considerar as circunstâncias em que eles aparecem para evitar que dificuldades próprias do cotidiano sejam automaticamente transformadas em patologias.

O psicólogo Wellington Aparecido Silva, mestrando em Psicologia pela Unesp de Assis e fundador do Núcleo de Apoio e Prevenção do Suicídio, ressalta a importância de olhar além dos rótulos clínicos, especialmente em regiões periféricas.

“Na investigação cuidadosa da história de vida e do contexto social desses jovens, muitas vezes encontramos uma realidade que vai além de um possível diagnóstico. Precisamos ter cuidado para não transformar qualquer dificuldade de concentração ou ansiedade em um transtorno como o TDAH”, adverte Wellington.

O psicólogo pondera que a rotina de muitos adolescentes tornou-se excessivamente restrita à escola e ao smartphone, com escassez de esporte, cultura e lazer presencial.

“O desafio não é apenas retirar o celular das mãos dos jovens, mas ajudá-los a construir uma vida que também seja interessante quando a tela está desligada”, pontua.

A observação coloca o ambiente virtual dentro de um contexto mais amplo. O uso do celular e da internet aparece como parte da rotina dos jovens, mas a avaliação do sofrimento também passa pelas relações familiares, pela escola, pelas condições sociais e pelas possibilidades de convivência fora das telas.

Família também precisa de cuidado

A identificação do sofrimento pode começar em casa. Mudanças de comportamento, tristeza, isolamento ou alterações na rotina são algumas das manifestações que podem levar pais e responsáveis a procurar ajuda.

Psicoterapeuta cognitivista Samara Sapez (Foto: Divulgação)

A psicoterapeuta cognitivista Samara Sapez enfatiza que manifestações comportamentais ruidosas costumam esconder pedidos desestruturados de socorro.

“Quando uma criança ou adolescente chora, demonstra raiva ou revolta, muitas vezes é um grito de ajuda”, analisa Samara.

Para a especialista, a prontidão e a sensibilidade no acolhimento familiar são fatores decisivos para interromper trajetórias de sofrimento. Ela também destaca o papel da rede pública no amparo às famílias durante momentos de crise.

“A saúde mental infantojuvenil ganha um sensível reforço em Marília. A proposta é clara: a equipe não trata apenas o transtorno, mas cuida da pessoa e dá suporte à sua história. Que o Caps IJ Catavento traga mais sorrisos e que suas terapias promovam ressignificação e menos aflição”, acrescenta.

Escolas entram no debate

A discussão sobre saúde mental também chegou às escolas. Pesquisa TIC Educação 2025 aponta que 80% das escolas brasileiras de ensino fundamental e médio já discutem os efeitos do ambiente virtual na saúde mental dos alunos.

O levantamento foi divulgado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), ligado ao Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).

Segundo a pesquisa, o percentual de escolas que discutem os impactos do ambiente virtual na saúde mental dos alunos cresceu 18 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior. O estudo também aponta dificuldades relacionadas à falta de materiais de apoio e à participação dos pais no debate.

O dado nacional ajuda a dimensionar uma preocupação que ultrapassa os consultórios e serviços especializados. Ainda assim, os números do Caps IJ Catavento não permitem relacionar diretamente os acolhimentos registrados em Marília ao uso de internet ou de celulares. No serviço, a avaliação considera o conjunto de fatores que envolve a vida da criança ou do adolescente.

Novo espaço para atendimento

O Caps IJ Catavento também passou a funcionar em novo endereço. A unidade deixou a zona sul e foi transferida para a zona oeste, na rua Tupã, 446.

Segundo a administração municipal, a nova estrutura oferece espaços mais adequados para oficinas terapêuticas e atendimentos individuais, médicos, psicológicos, de enfermagem e de terapia ocupacional, além de atividades de apoio às famílias.

A mudança mantém a proposta de cuidado em liberdade e de reinserção comunitária, conforme as diretrizes do serviço.

No atendimento, os números dão dimensão à demanda, mas cada acolhimento representa uma história diferente. Por isso, a proposta do serviço passa não apenas pela identificação de sintomas, mas pela compreensão do contexto em que crianças e adolescentes vivem e pela construção de caminhos de cuidado para eles e suas famílias.

As atividades do Caps IJ Catavento podem ser acompanhadas pelo @capsij_marilia

Michele Rodrigues

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