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A leitura que cura

(Imagem: Divulgação)

Sei da história de um rapaz que, não conseguindo concretizar a paixão da sua juventude, passou a escrever poemas nos muros do entorno da casa da moça. A menina, ao que parece, nem gostava de poesia, e jamais leu uma linha do que o ‘Romeu’ da ocasião produziu. Se ele ficou com ela, a história não revela. Mas, certamente, para as meninas daquela época que liam poesias os tais versos soltos nos muros do bairro lhe trouxeram certa sensação. ‘Romeu’ deve ter se sentido realizado por ter conseguido expressar aquilo que sentia pela indiferente ‘Julieta’. Aqui, não foi a leitura que curou, mas a escrita. Porém, a pauta da crônica desta semana é sobre leitura que cura e não a escrita que repara os nossos sentimentos.

Voltarei a falar da escrita curativa em outra oportunidade. Sobre a leitura que cura, posso dizer que diariamente faço uso deste santo remédio. Seja ao abrir o livro que possuo com os Evangelhos diários antes de começar o expediente, seja ao folhear um romance ou uma biografia. Costumo sempre ler biografias, sendo que a última que li foi sobre uma liderança que está na vida pública há décadas, inclusive exercendo mandatos eletivos no Poder Legislativo brasileiro.

Agora estou lendo a biografia de um dos poetas mais influentes do idioma inglês e da literatura norte-americana, Walt Whitman (1819-1892). Foi Whitman quem escreveu um dos mais importantes livros de poesia dos Estados Unidos, ‘Folhas de Relva’, cuja primeira edição é do ano de 1855. Nos tempos da guerra entre os Estados do Sul e o Norte, o poeta foi enfermeiro nos hospitais de campanha e costumava ler cartas para os soldados enfermos. Também escrevia cartas para aqueles que eram analfabetos. E eram numerosos os que não sabiam ler e escrever. 

De Whitman extraí o epígrafe que abre o meu romance ‘Canavial, os vivos e os mortos’ (La Musetta, 2022): ‘Por mim passam vozes mudas há tanto tempo/Vozes das intermináveis gerações de escravos/Vozes das prostitutas e pessoas deformadas/Vozes dos doentes e desesperados…/Por mim passam vozes proibidas… /…vozes veladas, e eu removo o véu – ‘Canto de mim mesmo’, Walt Whitman’.

Este papel, de remover o véu e dar voz a quem precisa sempre consistiu, na minha opinião, o principal papel do poeta, do escritor, do contador e do cronista. Do cantor também, porque cantar é a arte de entoar o sentimento que todo mundo guarda escondido e não sabe como soltar. Então, o cantor solta a voz por você e tudo fica melhor, não acham?

Acho que a leitura cura não só as nossas dores, mas as dores do mundo e não é difícil topar com pessoas que revelam que tal livro mudou a sua vida. Entre os que mudaram o curso da minha história, está o ‘O alquimista’, de Paulo Coelho. Quando li, aos 15 anos, defini os próximos passos da minha jornada. Engraçado que, quando estive nas ruas do Cairo, um livreiro de uma livraria ao ar livre me presenteou com um exemplar de ‘O alquimista’ em inglês, ‘The Alchemist’. A leitura dos livros de Paulo Coelho me curou de algumas coisas sim, e me livrou de outras, também. A vivência que um escritor imprime numa obra, seja fictícia ou verídica, tem esse efeito terapêutico nos leitores: nos ajuda a sofrer menos. Embora, entendo, que não haja crescimento sem sofrimento. É isso.

Ramon Franco

Ramon Barbosa Franco é escritor e jornalista, autor de diversos livros, entre eles ‘A próxima Colombina’

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