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A esquecida obra de um gênio

Gênio Antônio Francisco Lisboa entrou para a história das artes do Brasil com o apelido de Aleijadinho (Foto: Ewerton Martins Ribeiro/UFMG)

Li recentemente que a Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (EBA/UFMG) reconheceu que um “santo de vestir” – e confesso que até então jamais tinha lido ou visto o termo, “santo de vestir” – fora esculpido por Aleijadinho, o mestre do barroco brasileiro.

O gênio Antônio Francisco Lisboa, que entrou para a história das artes do Brasil com o apelido de Aleijadinho era das Minas Gerais, da época do império, e viveu entre 1738 e 1814. Sua trajetória tanto me assustava na infância quanto despertava admiração. Achava que o artista era uma espécie de assombração, por ter sido estigmatizado por sua deficiência.

Ao vivo e a cores, vi uma única vez uma obra do mestre. Estava a trabalho em São Paulo, no Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo do Estado de São Paulo, e no saguão do piso térreo estava uma exposição com esculturas e telas de grandes artistas brasileiros.

Havia um quadro da Tarsila do Amaral (1886-1973) e uma imagem sacra de Aleijadinho, além de um busto que retratava uma ex-namorada do escritor e poeta Oswald Andrade (1890-1954) feito por Victor Brecheret (1894-1955). ‘Dasy’, o nome da obra, apresenta a sensualidade envolvente da Miss Cyclone, uma normalista que viveu um romance tórrido e trágico com Oswald.

“Neve na manhã de São Paulo”, livro de José Roberto Walker, de fato, foi quem me preparou para reconhecer o busto “Dasy”, que se chamava Maria de Lourdes, e não Miss Cyclone. E assim, o gênio do barroco não era Aleijadinho, mas Antônio Francisco. O “santo de vestir” esquecido e recentemente atribuído à lavra de Antônio Francisco é de madeira policromada, tem altura menor de 1,30 metro e pesa 16 quilos.

Parece, e não é certeza, que um dos Doze Profetas esculpidos no adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, cidade de 55 mil habitantes, localizada a 75 quilômetros de Belo Horizonte, traria um autorretrato do artista. Existem fortes suspeitas de que seria Amós, mas também já li algo ligado ao profeta Jonas. Além de Amós e Jonas, estão esculpidos em pedra-sabão outros 10 profetas: Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Oséias, Baruque, Joel, Abdias, Habacuque e Naum. O trabalho do mestre foi executado entre 1800 e 1805 e até hoje impressiona. A arte é assim mesmo: assombra, envolve e arrebata.

*

Ramon Barbosa Franco é escritor e jornalista, autor dos livros ‘Canavial, os vivos e os mortos’ (La Musetta Editoriais), ‘A próxima Colombina’ (Carlini & Caniato), ‘Contos do japim’ (Carlini & Caniato), ‘Vargas, um legadopolítico’ (Carlini & Caniato), ‘Laurinda Frade, receitas da vida’ (Poiesis Editora) e das HQs ‘Radius’ (LM Comics), ‘Os canônicos’ (LM Comics) e ‘Ondenasce a Luz’ (Unimar – Universidade de Marília), ramonimprensa@gmail.com

Ramon Franco

Ramon Barbosa Franco é escritor e jornalista, autor de diversos livros, entre eles ‘A próxima Colombina’

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