Em 14 de abril, o Ibovespa bateu sua máxima histórica, aos 199.354 pontos. Em menos de dois meses, perdeu mais de 14% e chegou a operar abaixo dos 170 mil pontos — a maior correção do índice em 2026. Hoje, o indicador opera perto dos 173 mil pontos, ainda com alta de 7,6% no ano, mas praticamente estagnado desde junho.
Antes de discutir o que a eleição presidencial de outubro pode trazer para o mercado, vale entender tecnicamente o que já aconteceu: o movimento de alta e, principalmente, o de correção foi determinado quase inteiramente pelo fluxo de capital estrangeiro, e não pelo calendário eleitoral.
A mecânica por trás da máxima de abril
A escalada até os 199 mil pontos teve origem em duas rotações globais simultâneas. A primeira foi a tese de desvalorização do dólar, que empurrou capital para fora dos ativos americanos e beneficiou metais preciosos e mercados emergentes, entre eles o Brasil.
A segunda foi o chamado HALO trade, movimento de rotação de ações de crescimento para ativos de valor e ligados a commodities, em meio ao temor de que a inteligência artificial pudesse desestruturar cadeias de negócios inteiras. A combinação gerou uma onda recorde de fluxo passivo estrangeiro para a B3, que sustentou sucessivas máximas do índice até a virada de abril.
A reversão: o fluxo saiu tão rápido quanto entrou
A virada começou com a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, que dividiu o desempenho setorial da Bolsa: ações ligadas ao petróleo se beneficiaram da disparada do barril, enquanto a abertura da curva de juros doméstica pressionou os setores cíclicos e provocou uma correção inicial.
O mercado reagiu rapidamente. O Brasil passou a ser visto como bem posicionado, com exposição ao petróleo e risco geopolítico direto limitado, o que levou o índice à máxima histórica em 14 de abril.
Dali em diante, porém, o cenário mudou de figura. Uma temporada de resultados muito fortes das empresas de inteligência artificial no primeiro trimestre reacendeu o apetite global por essas teses, direcionando capital para Estados Unidos, Coreia do Sul e Taiwan.
O fluxo estrangeiro para o Brasil se reverteu, e a piora simultânea das perspectivas de inflação e juros domésticos, somada ao aumento do ruído político, amplificou a saída. O resultado foi um fechamento de junho aos 172.024 pontos, queda de 1,1% no mês, ainda que com alta de 6,76% no semestre.
Os números do fluxo confirmam o movimento
Os dados de fluxo cambial reforçam essa leitura. Depois de acumular mais de R$ 42 bilhões em entradas estrangeiras no auge do rali, em fevereiro, o saldo positivo no ano encolheu para cerca de R$ 32,8 bilhões ao final de junho — mês em que, isoladamente, o capital estrangeiro deixou a Bolsa em R$ 8,7 bilhões.
Julho começou na mesma toada, com saldo mensal ainda negativo nas primeiras semanas. Hoje, com o índice em 173,3 mil pontos e variação de apenas 0,76% no mês, o quadro é de estabilização em patamar bem abaixo do pico, e não de retomada da tendência de alta.
Onde a eleição entra na conta
É nesse ponto técnico que outubro se conecta ao mercado — não como causa da correção já ocorrida, majoritariamente explicada por fluxo global e geopolítica, mas como vetor adicional de volatilidade daqui até o fim do ano.
Ao revisar sua projeção para o Ibovespa de 205 mil para 200 mil pontos ao fim de 2026, a XP Investimentos citou a alta recente das taxas de juros reais de longo prazo como principal motivo, mas apontou o pleito presidencial como um dos testes que devem definir o rumo do índice no segundo semestre, ao lado da trajetória dos juros.
O risco não está tanto no resultado em si — o mercado já opera com o duelo entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) como cenário-base —, mas na possibilidade de o ano eleitoral pressionar ainda mais um quadro fiscal que já é apertado.
O que os analistas ainda veem de sustentação
Apesar do corte de projeção, a XP mantém um viés moderadamente construtivo por dois motivos técnicos. Primeiro, o valuation segue descontado, e o indicador proprietário de sentimento da casa está em “pessimismo extremo” — historicamente, um sinal contrário que costuma anteceder recuperações.
Segundo, se a euforia global com a inteligência artificial perder força lá fora, o fluxo estrangeiro tende a voltar a rotacionar para mercados emergentes como o Brasil, revertendo o próprio movimento que provocou a correção.
No cenário-base, a casa projeta o Ibovespa a 200 mil pontos ao fim do ano — alta de cerca de 16% frente ao fechamento de junho. No cenário pessimista, o valor justo cai para 158 mil pontos; no otimista, sobe para 259 mil.
O que fica para o investidor
A leitura técnica de 2026, até aqui, é que o Ibovespa se move muito mais pela direção do fluxo de capital estrangeiro — e pelas rotações globais que o determinam — do que por qualquer notícia isolada do calendário eleitoral.
Isso não torna a eleição irrelevante: ela entra na conta como fator de risco fiscal, ao lado da trajetória da Selic e do cenário externo. O ponto central, portanto, é acompanhar os fundamentos que sustentam — ou não — o valuation da Bolsa brasileira no médio prazo.
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Lucas Caldeira é sócio-fundador e estrategista da Canaã Capital | XP
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