Entrevista da Semana

‘Temos que trabalhar no fator viário para perdoar o erro humano’, diz chefe da PRF

Bruno Bernardo é o inspetor-chefe da PRF em Marília desde 2023 (Foto: Arquivo Pessoal)

O policial rodoviário federal Bruno Bernardo soma duas décadas de atuação na Polícia Rodoviária Federal (PRF). Aprovado em concurso em 2004, quando o ingresso ainda exigia nível médio, foi convocado dois anos depois e iniciou a carreira na Superintendência em São Paulo. Desde 2008 está lotado na Delegacia da PRF em Marília, onde atualmente exerce a chefia.

Ao longo da entrevista, Bruno relembra a trajetória profissional e detalha a evolução da PRF nos últimos anos, com destaque para o avanço das ferramentas de inteligência, a sistematização da análise de rotas e a modernização dos procedimentos de fiscalização e de atendimento a sinistros de trânsito.

O chefe da delegacia também aborda temas sensíveis da malha rodoviária regional, como a redução de acidentes, os impactos das rodovias de pista simples, a expectativa de repactuação do contrato de concessão da BR-153 no trecho paulista e o aumento das apreensões de medicamentos contrabandeados.

Na conversa a seguir, ele comenta os principais desafios da segurança viária e orienta motoristas que trafegam pelo trecho sob jurisdição da PRF, que se estende até o município de Promissão.

***

MN – Sempre sonhou em ser policial?

Bruno Bernardo – Meu pai é policial civil aposentado e minha mãe também trabalhou na Polícia Civil como auxiliar administrativa. Sempre tive contato com a área. Não diria que foi um sonho, mas acabou sendo um caminho natural, até porque sempre gostei da profissão.

MN – Qual é o maior desafio na PRF para quem está entrando agora?

Bruno Bernardo – Para quem está ingressando por concurso federal, o maior desafio é a lotação, ou seja, para onde será designado. Existem regiões com logística muito difícil, como a norte. Tive a sorte de permanecer no Estado de São Paulo e, pouco tempo depois, retornar para casa. Há colegas que levam seis, oito ou até 10 anos para conseguir a lotação de preferência.

Bruno Bernardo, William Buim, Almeida Junior e Valmir Cordelli em São Paulo (Foto: Arquivo Pessoal)

MN – Você está no comando da PRF de Marília há quanto tempo?

Bruno Bernardo – Participo da gestão da delegacia desde 2014. Comecei como substituto da chefia do núcleo de policiamento e fiscalização e, alguns anos depois, assumi a chefia. É uma função bastante trabalhosa, pois envolve toda a parte operacional e de escalas. Em 2022 voltei à escala de rua por seis meses. No início de 2023, quando o então chefe da delegacia assumiu a Superintendência, fui convidado a assumir a chefia, função que exerço há três anos.

MN – O que mudou desde a época em que você entrou até agora, em relação à inteligência e às tecnologias utilizadas para coibir crimes e fiscalizar veículos nas rotas da região?

Bruno Bernardo – Mudou praticamente tudo. O conhecimento empírico que aplicávamos — e que funcionava muito bem, tanto que a Delegacia de Marília é historicamente uma das que mais apreende drogas no estado, por conta da chamada “rota caipira” — foi sistematizado. A polícia transformou essa experiência em análise de rotas. Hoje, sem o serviço de inteligência, o chamado “tirocínio” policial ainda funciona, mas não tem a mesma efetividade de 10 ou 15 anos atrás.

MN – Principalmente após a mudança das placas dos veículos?

Bruno Bernardo – Exatamente. Antes da placa Mercosul, era comum identificar veículos de cidades como Ponta Porã, Naviraí, Foz do Iguaçu ou Cascavel e, pela entrevista com o condutor, já ter um indicativo da situação. Com a mudança, a polícia precisou se adaptar. A corporação se modernizou muito, não apenas na parte criminal, mas também na prevenção de acidentes.

Operação de combate ao crime na região de Ourinhos (Foto: Arquivo Pessoal)

MN – Como foi essa modernização na prevenção dos acidentes?

Bruno Bernardo – Houve aprimoramento no registro. Antes era o Boletim de Acidente de Trânsito, que evoluiu para Laudo Pericial de Acidente e, agora, Laudo Pericial de Sinistro de Trânsito. Isso exige que o policial identifique com precisão as causas, se foi uma ou mais, para direcionar melhor as ações preventivas e alimentar corretamente as estatísticas. Antigamente, a maior causa registrada era “outros”, em cerca de 80% dos casos. Essa opção foi retirada justamente para forçar a definição clara das causas.

MN – Apesar do último acidente trágico, no ano passado, a PRF registrou redução de mortes e acidentes?

Bruno Bernardo – Sim. Apesar das condições de pista simples, os números de acidentes graves na região costumam ser baixos. O acidente específico, com seis óbitos no local, foge totalmente do padrão. A análise de dados exige entender os pontos críticos e as causas reais, sem direcionar a atenção apenas a um tipo de veículo.

MN – É possível afirmar que a maior parte dos acidentes decorre de imprudência ou imperícia, somadas às más condições de algumas rodovias? Isso ajuda a explicar o último acidente com sete mortes em Marília?

Bruno Bernardo – Com certeza, a maior parte dos acidentes poderia ser evitada, pois deriva do fator humano. Existe um termo sobre “rodovias que condenam” e “rodovias que perdoam”. O que nós podemos fazer com o fator viário para que o erro humano seja amenizado? Instalar canteiro central e duplicar a via quase zera as colisões frontais. No caso desse ônibus, ele rodava em um eixo que deveria ter quatro pneus com apenas três, o que está errado, mas se não houvesse o buraco na pista, o pneu talvez não tivesse estourado. Temos que trabalhar no fator viário para ‘perdoar’ o erro humano e evitar lesões aos usuários da via.

Homenagem recebida no Baep em Bauru (Foto: Arquivo Pessoal)

MN – Há perspectiva de novo contrato ou concessão da BR-153 no trecho paulista?

Bruno Bernardo – O contrato atual vai até 2033. No entanto, concessões feitas em 2008, segundo a própria terminologia oficial, “não performaram conforme o esperado”, o que ocorreu não só nesse trecho. A expectativa era de repactuação no ano passado, mas deve ocorrer neste ano. Nesse processo, com participação da ANTT e do TCU, as cláusulas são revistas e pode haver até mudança de concessionária.

MN – Para quem vai trafegar no trecho sob jurisdição da PRF, até Promissão, quais são as principais orientações?

Bruno Bernardo – Como o principal fator é o humano, é fundamental verificar as condições do veículo e fazer revisão antes da viagem. Também é preciso obedecer rigorosamente à sinalização. A velocidade máxima de 80 km/h na maior parte do trecho tem justificativa. Trata-se de rodovia de pista simples, com trevos em nível, o que eleva o risco de colisão transversal.

MN – Ainda há muito desrespeito às regras?

Bruno Bernardo – Infelizmente, sim. Registramos muitas autuações por excesso de velocidade, ultrapassagens indevidas e consumo de álcool ao volante.

MN – Houve aumento na apreensão de medicamentos contrabandeados na região. Como a PRF tem lidado com isso?

Bruno Bernardo – Observamos crescimento no número de apreensões. Estamos em tratativas com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal para estabelecer novo fluxo de encaminhamento desses casos, a fim de melhorar a resposta operacional.

MN – Isso pode ampliar a fiscalização e evitar desguarnecer áreas?

Bruno Bernardo – Exatamente. Hoje, uma ocorrência desse tipo pode deixar o policial horas fora da área de cobertura, apesar de a pena prevista variar de um a três anos. Com novo fluxo, a tendência é aumentar o número de apreensões sem comprometer a presença ostensiva nas rodovias.

Alcyr Netto

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