Entrevista da Semana

‘Não existe prontidão real com apenas uma pessoa’, diz piloto sobre aeroporto

Jolando Gatto já havia denunciado a falta de equipe de bombeiros no Aeroporto de Marília (Foto: Arquivo Pessoal)

A tragédia aérea que vitimou dois pilotos e deixou um sobrevivente em Marília reacendeu o debate sobre a estrutura de segurança disponível no aeroporto da cidade. Entre os questionamentos levantados após o acidente está a ausência de uma equipe especializada de combate a incêndios aeronáuticos em regime de prontidão, apesar de o local contar com caminhão, equipamentos e instalações específicas para esse tipo de emergência.

Em entrevista ao Marília Notícia, o piloto Jolando Gatto afirma que já havia alertado autoridades sobre o esvaziamento do serviço de prevenção e combate a incêndio no aeroporto. Segundo ele, uma mudança nas regras da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) retirou a obrigatoriedade da manutenção dessas equipes em aeroportos de menor porte, reduzindo drasticamente a estrutura que antes contava com dezenas de profissionais especializados.

Para o piloto, a tragédia expõe a necessidade de reavaliar os critérios adotados para a segurança aeroportuária regional. Embora ressalte que apenas as investigações poderão apontar as causas da queda da aeronave, ele defende que a existência de uma equipe treinada e pronta para agir nos primeiros minutos após o acidente poderia ter ampliado as chances de resgate das vítimas.

***

MN – Você já havia alertado sobre a situação dos bombeiros no Aeroporto de Marília e que isso poderia acarretar em uma tragédia. E, de fato, isso aconteceu, não é?

Jolando Gatto – Sim. Nós fizemos uma denúncia sobre isso. Quando retornei a Marília, depois de muitos anos trabalhando como piloto em outros estados, como Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás, fiquei surpreso ao descobrir que toda a estrutura de combate a incêndio do aeroporto estava reduzida a apenas uma pessoa. Quando deixei Marília, por volta de 2012, havia 21 bombeiros trabalhando no local. É uma diferença muito grande. Eram quatro equipes de cinco bombeiros cada, trabalhando em turnos para garantir atendimento permanente. Havia funções específicas: motorista, socorrista, combate a incêndio, além do chefe da equipe. Era uma estrutura completa e preparada para qualquer emergência.

MN – E como isso mudou?

Jolando Gatto – Houve uma mudança nas regras da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), baseada em uma flexibilização inspirada em critérios econômicos. A justificativa era de que aeroportos menores teriam menor potencial de tragédia em caso de acidente e que manter equipes de combate a incêndio representava um custo elevado para aeroportos regionais.

MN – O que mudou na prática?

Jolando Gatto – A regra passou a dispensar a obrigatoriedade do Serviço de Prevenção, Salvamento e Combate a Incêndio em aeroportos de menor porte. Hoje, a exigência ficou restrita a aeroportos com grande movimentação diária de passageiros. Isso contrariou recomendações internacionais de segurança da aviação civil.

MN – Marília tinha toda essa estrutura pronta?

Jolando Gatto – Sim. O aeroporto possui caminhão especializado, torre de observação, prédio operacional e equipamentos específicos para emergências aeronáuticas. Tudo isso foi construído com recursos públicos. O problema é que a estrutura ficou praticamente sem utilização. Hoje existe apenas um funcionário, que mantém habilitações em dia, mas não consegue desempenhar sozinho as funções necessárias em uma emergência.

Jolando Gatto destacou que estrutura completa teria chance de salvar vidas das vítimas (Foto: Arquivo Pessoal)

MN – Um único profissional não seria suficiente para uma ocorrência desse porte?

Jolando Gatto – De forma alguma. Uma pessoa sozinha não consegue fazer combate a incêndio, resgate e atendimento simultaneamente. Nem retirar uma vítima de dentro de uma aeronave. Além disso, esse funcionário tem horário de almoço, férias e outras ausências normais. Não existe prontidão real com apenas uma pessoa.

MN – Se o serviço estivesse funcionando plenamente, poderia ter feito diferença?

Jolando Gatto – Seguramente. Se houvesse uma equipe de prontidão no aeroporto, os bombeiros teriam chegado em dois ou três minutos. Eles possuem treinamento específico, equipamentos adequados e capacidade de controlar incêndios aeronáuticos. Pessoas que atuaram no local relataram que as vítimas ainda estavam vivas nos primeiros momentos após a queda. Esse tempo faz toda a diferença.

MN – Então você acredita que vidas poderiam ter sido salvas?

Jolando Gatto – Não posso afirmar categoricamente o desfecho, mas posso dizer que a presença de uma equipe especializada aumentaria as chances de resgate. Esse é justamente o motivo da existência desse serviço.

MN – Você conhecia as vítimas?

Jolando Gatto – Conhecia o Rique (Henrique Guariente Filho). O Rique, inclusive, foi meu aluno. Receber essa notícia foi um choque enorme. Estamos falando de profissionais capacitados e experientes. Ele tinha uma filha de dois anos e um futuro pela frente.

MN – Como a comunidade aeronáutica recebeu a notícia?

Jolando Gatto – Com muita tristeza e indignação. A repercussão foi enorme. Muitas pessoas, desde profissionais da aviação até pessoas sem conhecimento técnico, começaram a questionar por que aquela estrutura de combate a incêndio existente no aeroporto não atuou no atendimento.

MN – As imagens do acidente também tiveram grande impacto?

Jolando Gatto – Sim. Foram cenas muito fortes. O incêndio, as tentativas desesperadas de resgate e a informação de que havia pessoas vivas dentro da aeronave causaram enorme comoção. Para mim, foi ainda mais difícil porque eu já havia alertado sobre essa situação anteriormente.

MN – Como você avalia a atuação das pessoas que ajudaram a retirar o sobrevivente?

Jolando Gatto – Foram verdadeiros heróis. Nem todos conseguem agir em momentos de extrema pressão. Pelos relatos e imagens, levaram extintores e fizeram tudo o que estava ao alcance delas para salvar vidas. Merecem reconhecimento por essa coragem.

MN – Mas havia limitações para esse combate ao fogo?

Piloto criticou atual estrutura do Aeroporto de Marília (Foto: Arquivo Pessoal)

Jolando Gatto – Sim. Incêndios aeronáuticos exigem equipamentos específicos. Uma aeronave pode transportar centenas de litros de combustível. Não é simplesmente jogar água. É necessário equipamento adequado, espuma especial e treinamento específico. Por isso existe o serviço aeroportuário especializado.

MN – E os primeiros minutos são decisivos?

Jolando Gatto – São fundamentais. Na aviação, os protocolos de resposta trabalham com tempos inferiores a dois minutos. Esse é o período mais importante para controlar o incêndio e realizar o resgate. Depois disso, as chances diminuem drasticamente.

MN – Se o avião tivesse caído dentro da área do aeroporto seria diferente?

Jolando Gatto – Se a aeronave tivesse caído para dentro do muro do aeroporto, teria morrido todo mundo. Ninguém de fora poderia ter entrado na área restrita para prestar socorro. E como o responsável pelo caminhão de combate a incêndio provavelmente estava almoçando, não haveria ninguém lá dentro para apagar o fogo e remover as vítimas.

MN – Já existe alguma hipótese sobre as causas do acidente?

Jolando Gatto – Ainda é muito cedo para qualquer conclusão. Precisamos aguardar o trabalho dos órgãos responsáveis pela investigação. Acidentes aeronáuticos normalmente não decorrem de um único fator. É necessário analisar imagens, dados técnicos, condições da aeronave e ouvir o sobrevivente antes de qualquer avaliação.

MN – O depoimento do sobrevivente será importante?

Jolando Gatto – Fundamental. Ele estava dentro da aeronave e possui conhecimento técnico como piloto. Sua versão ajudará muito na compreensão do que ocorreu nos momentos que antecederam o acidente.

MN – O que espera que aconteça após essa tragédia?

Jolando Gatto – Espero que esse caso sirva de reflexão para que a agência reguladora reavalie essa desregulamentação. A segurança deve ser prioridade máxima na aviação. O que aconteceu em Marília mostra a importância de manter estruturas de emergência efetivamente operacionais quando elas já existem e estão disponíveis para proteger vidas.

Alcyr Netto

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