Jolando Gatto já denunciou falta de equipe de bombeiros no Aeroporto de Marília (Foto: Arquivo pessoal)
A tragédia aérea que vitimou dois pilotos e deixou um sobrevivente em Marília reacendeu o debate sobre a estrutura de segurança disponível no aeroporto da cidade. Entre os questionamentos levantados após o acidente está a ausência de uma equipe especializada de combate a incêndios aeronáuticos em regime de prontidão, apesar de o local contar com caminhão, equipamentos e instalações específicas para esse tipo de emergência.
Em entrevista ao Marília Notícia, o piloto Jolando Gatto afirma que já havia alertado autoridades sobre o esvaziamento do serviço de prevenção e combate a incêndio no aeroporto. Segundo ele, uma mudança nas regras da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) retirou a obrigatoriedade da manutenção dessas equipes em aeroportos de menor porte, reduzindo drasticamente a estrutura que antes contava com dezenas de profissionais especializados.
Para o piloto, a tragédia expõe a necessidade de reavaliar os critérios adotados para a segurança aeroportuária regional. Embora ressalte que apenas as investigações poderão apontar as causas da queda da aeronave, ele defende que a existência de uma equipe treinada e pronta para agir nos primeiros minutos após o acidente poderia ter ampliado as chances de resgate das vítimas.
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MN – Você já havia alertado sobre a situação dos bombeiros no Aeroporto de Marília e que isso poderia acarretar em uma tragédia. E, de fato, isso aconteceu, não é?
Jolando Gatto – Sim. Nós fizemos uma denúncia sobre isso. Quando retornei a Marília, depois de muitos anos trabalhando como piloto em outros estados, como Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás, fiquei surpreso ao descobrir que toda a estrutura de combate a incêndio do aeroporto estava reduzida a apenas uma pessoa. Quando deixei Marília, por volta de 2012, havia 21 bombeiros trabalhando no local. É uma diferença muito grande. Eram quatro equipes de cinco bombeiros cada, trabalhando em turnos para garantir atendimento permanente. Havia funções específicas: motorista, socorrista, combate a incêndio, além do chefe da equipe. Era uma estrutura completa e preparada para qualquer emergência.
MN – E como isso mudou?
Jolando Gatto – Houve uma mudança nas regras da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), baseada em uma flexibilização inspirada em critérios econômicos. A justificativa era de que aeroportos menores teriam menor potencial de tragédia em caso de acidente e que manter equipes de combate a incêndio representava um custo elevado para aeroportos regionais.
MN – O que mudou na prática?
Jolando Gatto – A regra passou a dispensar a obrigatoriedade do Serviço de Prevenção, Salvamento e Combate a Incêndio em aeroportos de menor porte. Hoje, a exigência ficou restrita a aeroportos com grande movimentação diária de passageiros. Isso contrariou recomendações internacionais de segurança da aviação civil.
MN – Marília tinha toda essa estrutura pronta?
Jolando Gatto – Sim. O aeroporto possui caminhão especializado, torre de observação, prédio operacional e equipamentos específicos para emergências aeronáuticas. Tudo isso foi construído com recursos públicos. O problema é que a estrutura ficou praticamente sem utilização. Hoje existe apenas um funcionário, que mantém habilitações em dia, mas não consegue desempenhar sozinho as funções necessárias em uma emergência.
MN – Um único profissional não seria suficiente para uma ocorrência desse porte?
Jolando Gatto – De forma alguma. Uma pessoa sozinha não consegue fazer combate a incêndio, resgate e atendimento simultaneamente. Nem retirar uma vítima de dentro de uma aeronave. Além disso, esse funcionário tem horário de almoço, férias e outras ausências normais. Não existe prontidão real com apenas uma pessoa.
MN – Se o serviço estivesse funcionando plenamente, poderia ter feito diferença?
Jolando Gatto – Seguramente. Se houvesse uma equipe de prontidão no aeroporto, os bombeiros teriam chegado em dois ou três minutos. Eles possuem treinamento específico, equipamentos adequados e capacidade de controlar incêndios aeronáuticos. Pessoas que atuaram no local relataram que as vítimas ainda estavam vivas nos primeiros momentos após a queda. Esse tempo faz toda a diferença.
MN – Então você acredita que vidas poderiam ter sido salvas?
Jolando Gatto – Não posso afirmar categoricamente o desfecho, mas posso dizer que a presença de uma equipe especializada aumentaria as chances de resgate. Esse é justamente o motivo da existência desse serviço.
MN – Você conhecia as vítimas?
Jolando Gatto – Conhecia o Rique (Henrique Guariente Filho). O Rique, inclusive, foi meu aluno. Receber essa notícia foi um choque enorme. Estamos falando de profissionais capacitados e experientes. Ele tinha uma filha de dois anos e um futuro pela frente.
MN – Como a comunidade aeronáutica recebeu a notícia?
Jolando Gatto – Com muita tristeza e indignação. A repercussão foi enorme. Muitas pessoas, desde profissionais da aviação até pessoas sem conhecimento técnico, começaram a questionar por que aquela estrutura de combate a incêndio existente no aeroporto não atuou no atendimento.
MN – As imagens do acidente também tiveram grande impacto?
Jolando Gatto – Sim. Foram cenas muito fortes. O incêndio, as tentativas desesperadas de resgate e a informação de que havia pessoas vivas dentro da aeronave causaram enorme comoção. Para mim, foi ainda mais difícil porque eu já havia alertado sobre essa situação anteriormente.
MN – Como você avalia a atuação das pessoas que ajudaram a retirar o sobrevivente?
Jolando Gatto – Foram verdadeiros heróis. Nem todos conseguem agir em momentos de extrema pressão. Pelos relatos e imagens, levaram extintores e fizeram tudo o que estava ao alcance delas para salvar vidas. Merecem reconhecimento por essa coragem.
MN – Mas havia limitações para esse combate ao fogo?
Jolando Gatto – Sim. Incêndios aeronáuticos exigem equipamentos específicos. Uma aeronave pode transportar centenas de litros de combustível. Não é simplesmente jogar água. É necessário equipamento adequado, espuma especial e treinamento específico. Por isso existe o serviço aeroportuário especializado.
MN – E os primeiros minutos são decisivos?
Jolando Gatto – São fundamentais. Na aviação, os protocolos de resposta trabalham com tempos inferiores a dois minutos. Esse é o período mais importante para controlar o incêndio e realizar o resgate. Depois disso, as chances diminuem drasticamente.
MN – Se o avião tivesse caído dentro da área do aeroporto seria diferente?
Jolando Gatto – Se a aeronave tivesse caído para dentro do muro do aeroporto, teria morrido todo mundo. Ninguém de fora poderia ter entrado na área restrita para prestar socorro. E como o responsável pelo caminhão de combate a incêndio provavelmente estava almoçando, não haveria ninguém lá dentro para apagar o fogo e remover as vítimas.
MN – Já existe alguma hipótese sobre as causas do acidente?
Jolando Gatto – Ainda é muito cedo para qualquer conclusão. Precisamos aguardar o trabalho dos órgãos responsáveis pela investigação. Acidentes aeronáuticos normalmente não decorrem de um único fator. É necessário analisar imagens, dados técnicos, condições da aeronave e ouvir o sobrevivente antes de qualquer avaliação.
MN – O depoimento do sobrevivente será importante?
Jolando Gatto – Fundamental. Ele estava dentro da aeronave e possui conhecimento técnico como piloto. Sua versão ajudará muito na compreensão do que ocorreu nos momentos que antecederam o acidente.
MN – O que espera que aconteça após essa tragédia?
Jolando Gatto – Espero que esse caso sirva de reflexão para que a agência reguladora reavalie essa desregulamentação. A segurança deve ser prioridade máxima na aviação. O que aconteceu em Marília mostra a importância de manter estruturas de emergência efetivamente operacionais quando elas já existem e estão disponíveis para proteger vidas.
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