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O idioma é vivo e ‘Isso não conjumina’

Outro dia, ao ouvir o meu colega de trabalho – o talentoso fotógrafo Will Rocha – se expressar ao ver uma imagem, minha curiosidade de repórter e a minha dúvida de escritor me levaram a perguntar: “o que significa conjumina?”.

Will me explicou: “é quando duas coisas não têm sintonia. Por exemplo, quando você bate o olho num casal e nota que os dois não transmitem conexão, harmonia. Ou quando a pessoa coloca um tipo de roupa que não faz o estilo dela, ou seja: isso não conjumina”.

Confesso que até aquele dia nunca tinha ouvido a palavra “conjumina”. Anotei a resposta e pesquisei. Trata-se de um verbo transitivo direto que se refere a unir duas coisas diferentes num só conjunto. Antes de avançar na compreensão da expressão, fiz outra pergunta ao colega que divide a assessoria de imprensa e comunicação do Poder Legislativo comigo: “em qual lugar você ouviu a expressão ‘isso não conjumina’?”. Will me respondeu, então, que era muito comum ouvir a expressão na época em que ele trabalhou como DJ, animando as festas de peão de rodeio, principalmente na região de Marília.

Mesmo tendo frequentado algumas festas de peão e rodeio – tanto por gosto quanto por compromissos profissionais – confesso que nunca cheguei a ouvir conjuminar conjugado em alguma frase ou expressão.

Passei a notar que dá para utilizar o verbo conjuminar em várias situações. A mais recente pode estar associada à nomeação de uma liderança do Rio de Janeiro em um cargo público de alto escalão no Estado de São Paulo: “isso não conjumina, será que não haviam paulistas à altura de tal missão?”

Me lembrei, então, de que o idioma – assim como a política – é vivo e está em constantes transformações. Leonel Brizola, por exemplo, fora governador no Rio Grande do Sul na primeira fase de sua vida pública e encerrou sua trajetória de liderança no Rio de Janeiro, onde também fora governador de Estado. Mais recentemente, na nossa história, um líder parlamentar do Estado de Pernambuco se mudou para o Estado de São Paulo e exerceu vida pública por aqui, se elegendo deputado federal.

Deixemos a política no espaço dela e voltemos ao idioma português, aliás um dos mais importantes do mundo, falado por um grande contingente populacional, língua oficial de grandes países, como o Brasil, Portugal e Angola, e um dos principais, quando o assunto é mídias digitais e internet.

Custei para compreender a palavra “negacear”. Descobri o termo ao observar um quadro de Almeida Júnior (1850-1899), “Caipiras negaceando”, óleo sobre tela de 1888.

Almeida Júnior foi um mestre das artes plásticas que, após estudar na então capital do Brasil, Rio de Janeiro, optou por viver no Interior paulista – era natural de Itu e morreu assassinado em Piracicaba –, mas antes ganhou uma bolsa de estudos para cursar belas artes em Paris (bolsa concedida pelo então imperador Dom Pedro II).

Se Almeida voltasse à vida e resolvesse retratar novamente o seu Interior, creio que custaria para entender o que é lockdown, home office. crossfit e o “demônio” covid-19.

Acho que penaria para saber o que é feminicídio (ele, vítima de homicídio talvez até compreendesse essa), pós-verdade, sororidade, equidade, infodemia, necropolítica e negacionismo, pois estes são termos e palavras recentemente incluídos em nossa boa e velha língua portuguesa, a que já foi chamada certa vez de “inculta e bela”.

Ramon Franco

Ramon Barbosa Franco é escritor e jornalista, autor de diversos livros, entre eles ‘A próxima Colombina’

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