Quando ouvia “Faroeste caboclo”, a longa música do Legião Urbana, interpretada pelo poeta do rock brasileiro Renato Russo, imaginava cada estrofe como sendo uma cena de filme. A composição, depois, virou filme. Da mesma forma, ao ouvir “Eduardo e Mônica”, do mesmo Renato Russo, o encadeamento das rimas também me permitia projetar a história de um amor improvável entre um jovem recém-saído da adolescência e uma estudante universitária mais velha, cult e com ampla bagagem de leitura.
O diretor René Sampaio, o mesmo que fez “Faroeste caboclo”, revelou que haverá um terceiro filme inspirado nas canções de Renato Russo e do Legião Urbana. “Eduardo e Mônica” acabou de chegar aos cinemas.
A própria trajetória do poeta que passou a adolescência e a juventude em Brasília, Renato Manfredini Júnior (1960-1996), foi projetada em um longa-metragem. “Somos tão jovens”, de 2013. A relação entre música e cinema é profícua, produtiva e infinita.
Ando revendo os filmes de um dos principais diretores de cinema dos Estados Unidos, Sam Peckinpah (1925-1984) e, especificamente o filme “Pat Garret e Billy The Kid”, lançado em 1973, traz em sua trilha sonora a assinatura de Bob Dylan, que décadas depois seria agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.
As músicas são tão essenciais para compreender a mensagem de Peckinpah que sem elas o efeito do longa na mente e no coração do público não seria o mesmo. Bob Dylan também está no filme e interpreta um papel secundário na trama. Só para citar música em filmes de faroestes, a trilha composta por Clint Eastwood em “Os imperdoáveis”, de 1992, e que lhe rendeu dois Oscars – o de Melhor Filme e Melhor Direção, principalmente o tema do personagem principal é a própria síntese da trama cinematográfica que traz Morgan Freeman e o Eastwood como dois pistoleiros aposentados e vencidos.
Ver “Deus e o diabo na terra do sol”, de Glauber Rocha (1939-1981), clássico do Cinema Novo Brasileiro, o “O cangaceiro”, de Lima Barreto (o cineasta e não o escritor de nome homônimo) sem as respectivas trilhas sonoras, perde-se muito do contexto e da mensagem.
“O cangaceiro”, aliás, o primeiro grande sucesso mundial do cinema brasileiro, tem sua abertura e sua conclusão com cenas antológicas. Na linha do horizonte, cangaceiros seguem nos seus cavalos entoando a folclórica “Mulher rendeira]”. Este filme, rodado e lançado na década de 1950, na verdade em 1953, traz um grande compositor e cantor no elenco: Adoniran Barbosa (1912-1982).
O pai do samba paulistano interpreta um dos cangaceiros do bando que amedronta o sertão e tem uma participação marcante. A poesia de Adoniran Barbosa é inesquecível pelos sambas “Trem das Onze”, “Saudosa Maloca”, “Samba do Arnesto” e “Apaga o fogo, mané”. Assim como as músicas de Bob Dylan – “Romance in Durango”, por exemplo – ou as de Adoniran Barbosa – “Saudosa maloca”, principalmente – as de Renato Russo são perfeitamente adaptáveis para o cinema.
Das músicas que gosto, creio que “Ouro de tolo”, de Raul Seixas, viraria boa trama de um filme. Dos filmes brasileiros inspirados em músicas, “Ópera do malandro”, de Ruy Guerra, inspirada nas canções de Chico Buarque, tem a minha preferência. Bons filmes e boas músicas sempre andaram juntos e tendem a andar. “Nasce uma estrela”, de 2018, com a cantora Lady Gaga comprova o que disse.
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