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A incessante busca pelo inalcançável e os 170 anos da baleia Moby Dick

Tenho um hábito que herdei do pessoal mais sábio da minha família: tento descobrir o que os sonhos me revelam. Antes de a internet entrar na nossa rotina e nos estar sempre à mão a partir dos smartphones e a conectividade instantânea, buscava a interpretação de sonhos em revistas de horóscopos e nos almanaques. Hoje, assim que abro os olhos e venho de um ambiente onírico instigante ou perturbador, digito no Google o que aquela parábola produzida pela minha mente quer me falar. Às vezes me animo com a interpretação e torço para que aquilo realmente venha a se concretizar. Outas, então, nem termino de ler porque o que estará por vir é “bucha”.

Quando estava lendo a adaptação e tradução de Moby Dick feita por Carlos Heitor Cony (1926-2018), com base no colossal original de Herman Melville (1819-1891), comecei a ter sonhos inspirados na trama que traz o insano capitão Ahab na sua incessante busca pelo monstro branco que habita o fundo do mar: o cachalote voraz Moby Dick. Assim como Dom Quixote, Sancho Pança, Pedro Malazartes, Dom Casmurro, Capitu, Romeu, Julieta, Macunaíma, o lobo-do-mar Ahab é um dos personagens emblemáticos da Literatura. É tão perturbado e psicótico quanto o estudante pouco aplicado Raskólnikov, de Crime e Castigo. Tão absorto e compenetrado nos seus delírios de vingança quanto o sujeito que inventa o Clube da Luta, no filme com Brad Pitt e Edward Norton, inspirado no livro homônimo de Chuck Palahniuk. Não é difícil encontrar Ahab na vida real. Da mesma forma, a temível baleia branca pode ser compreendida como os grandes embates que envolvem a existência de qualquer pessoa.

Cito Moby Dick porque em 18 de outubro este clássico da Literatura Norte-americana completou 170 anos. A obra inspirou escritores, teve centenas de traduções, adaptações para outras artes, como cinema e TV.

Existem relatos de que um feroz cachalote avistado nas proximidades da ilha de Mocha, pertencente ao Chile, no oceano Pacífico, teria destruído ao menos 20 baleeiros e escapados de outros 80. Chegou, inclusive, a ser chamado de o maior e mais poderoso cachalote que já existiu em todo o Século 19.

Para quem gosta do assunto, recomendo o filme No Coração do Mar, lançado em 2015. A trama é inspirada no jovem Herman Melville entrevistando um dos sobreviventes de um naufrágio que teria sido provocado pela agressiva Mocha Dick. A partir deste relato, Melville teria redigido Moby Dick.

Recentemente topamos aí com uma Moby Dick, travestida nesta pandemia. Mas, ao contrário do capitão Ahab, que só usou o rancor e o ódio para tentar capturar a fera marítima e se deu muito mal, a ciência proporcionou ao mundo bases mais eficazes, como a vacina e protocolos sanitários. Ao que tudo indica, a Moby Dick de agora está voltando para o fundo do oceano. E espero que este pesadelo universal, que assola todas as pessoas deste planeta, chegue definitivamente ao seu fim.

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Ramon Franco

Ramon Barbosa Franco é escritor e jornalista, autor de diversos livros, entre eles ‘A próxima Colombina’

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