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O perigo de confundir sofrimento com profundidade

Vanessa Lheti, psicóloga clínica e especialista em terapia cognitivo-comportamental e prática baseada em evidências (Foto: Divulgação)

Há quem acredite que intensidade emocional define maturidade.
Como se cada ruptura interna produzisse um tipo raro de sabedoria, reservado a indivíduos “profundos”.
Porém, dor não garante discernimento; apenas revela vulnerabilidades silenciosas, muitas vezes ignoradas durante anos.

Sofrimento constante distorce percepções.
Culpa vira bússola.
Cansaço parece virtude.
Melancolia assume contornos de identidade.
A mente, exposta a pressões repetidas, cria associações equivocadas entre desgaste e lucidez, como se turbulência sustentasse importância.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, isso é facilmente observado.
Catastrofização amplia riscos inexistentes.
Rotulação reduz trajetórias complexas a definições rígidas.
Abstração seletiva destaca falhas, apaga conquistas e reforça narrativas negativas.
Quando essas distorções moldam interpretações, tristeza profunda ganha aparência de profundidade existencial — embora represente apenas sofrimento acumulado sem elaboração adequada.

Redes sociais alimentam essa confusão.
Frases sombrias viralizam rapidamente.
Confissões dramáticas conquistam atenção imediata.
O algoritmo recompensa impacto, jamais autocuidado.
Assim, muitas pessoas acreditam que sensibilidade real exige angústia permanente, quando, na verdade, apenas perpetuam padrões prejudiciais.

Profundidade genuína nasce em outro lugar.
Não surge por intensidade emocional.
Surge por compreensão.
Surge por organização interna.
Surge por responsabilidade diante da própria história.

Implica identificar necessidades, nomear estados, revisar crenças e construir escolhas coerentes.
Implica reconhecer limites, estabilizar rotinas, fortalecer vínculos e cultivar constância.
Implica abandonar narrativas que romantizam dor, substituindo ciclos repetitivos por ações concretas que sustentem equilíbrio.

Sofrimento contém informações importantes, mas não precisa conduzir identidades inteiras.
Experiências dolorosas merecem respeito, não adoração.
Traumas exigem acolhimento profissional, não pedestal.
Tristezas prolongadas sinalizam alerta, não profundidade.

Estado emocional ganha densidade quando existe direção.
Ganha consistência quando emoções deixam de controlar decisões.
Ganha clareza quando histórias deixam de aprisionar, passando a orientar com serenidade.

Talvez a verdadeira profundidade resida justamente nisso:
permitir que tranquilidade ocupe lugares antes dominados por turbulências.
Assumir responsabilidades internas sem transformar cada ferida em espetáculo.
Construir estabilidade com elegância, consciência e firmeza.

Porque sofrimento pode iniciar processos importantes, porém sabedoria somente floresce quando ciclos são encerrados — e caminhos renovados com lucidez.

***

Vanessa Lheti é psicóloga clínica (CRP 06/160363) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Prática Baseada em Evidências.

Os atendimentos psicológicos online podem ser agendados pelo WhatsApp (18) 99717-7571.

Mais informações podem ser obtidas no Instagram @psicovanessalheti ou pelo site [clique aqui].

Vanessa Lheti

Psicóloga clínica especializada em Terapia Cognitivo-Comportamental e prática baseada em evidências com foco em liberdade emocional e relacionamentos saudáveis.

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