Esta é uma das minhas preferidas do filósofo do samba: Noel Rosa, o poeta da Vila. Nascido em 1910, morreu precocemente aos 26 anos, em 1937. Portanto, Noel não foi o precursor da ‘maldição do 27’: aos 27 anos jovens talentos da música acabam se despedindo da Vida. Ele tinha 26, e se foi em 1937, ano em que completaria 27. A sequência da ‘maldição do 27’ tem neste baralho cartas como Jim Morrison, Janis Joplin e Jimi Hendrix, entre outros coringas da canção mundial.
Noel é Noel, e sua poesia musicada influenciou gerações de compositores e cantores brasileiros. De Nelson Gonçalves a Diogo Nogueira, e obviamente, o pai de Diogo, o grande João Nogueira, também. De Aracy de Almeida – isso mesmo, a Aracy não foi só a jurada chata do show de calouros do Silvio Santos, mas a principal intérprete de Noel Rosa – a Maria Bethânia.
Na verdade, ‘O cinema falado’ não é o nome da música que consiste numa das minhas preferidas do Noel, a canção chama-se ‘Não tem tradução’. Cinema falado é citado, porque na época – primórdios da sétima arte – estava ocorrendo a transição da preferência do público que, até então, era acostumado ao cinema mudo, para a maravilha em áudio e som do cinema falado. Desta música, gosto, especialmente, do trecho em que o poeta da Vila diz: ‘Amor lá no morro é amor pra chuchu/ As rimas do samba não são I Love You/ E esse negócio de alô boy e alô Johnny / Só pode ser conversa de telefone’. Essa genialidade de Noel com as palavras, mesclando os sentimentos e o cotidiano das pessoas, sempre me empolgou. Umas das primeiras biografias que li sem que fosse necessária para algum trabalho escolar trazia toda a trajetória deste precoce boêmio, que chegou a cursar meses de Medicina, mas abandonou a carreira acadêmica para continuar tocando violão, fazendo poesias e se apaixonando por musas impossíveis. E foram várias.
Curtir Noel Rosa aos 12, 13 anos de idade, me custou alguns dissabores sim. Não posso negar que para um adolescente dos anos de 1990 se conectar com o som e a poesia das décadas de 1920 e 1930 provocou, digamos, um certo isolamento. ‘No tempo de Noel Rosa’, a biografia escrita pelo músico Almirante, contemporâneo de Noel, foi lida por mim em várias tardes, logo após a aula. Depois, assisti a um filme que retratava em parte aquela atmosfera do Rio de Janeiro do tempo do poeta e da boêmia que ele vivia, ‘Ópera do Malandro’, de Ruy Guerra, com música de Chico Buarque de Holanda e muitas cenas antológicas. São referências que sempre me alimentam a alma literária e trilham a sonoridade para o enfrentamento do cotidiano.
Noel Rosa produziu música, poesia e uma verdadeira crônica poética do cotidiano do Rio por uma década: de 1927 a 1937. Seus sambas ecoam até os dias de hoje. Sua vida está retratada em suas músicas, incluindo todos os seus amores. Morreu de tuberculose e uma das suas fotos mais reproduzidas – a que aparece acendendo um cigarro, cabelo penteadinho de lado – o que surge do seu bolso do paletó não é um charmoso lenço preto, mas sim – acreditem – a sua meia, que foi retirada do pé e colocada lá a pedido do fotógrafo. Esse foi o poeta Noel: irreverência e sensibilidade em pessoa.
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Ramon Barbosa Franco é escritor e jornalista, autor dos livros ‘Canavial, os vivos e os mortos’ (La Musetta Editoriais), ‘A próxima Colombina’ (Carlini & Caniato), ‘Contos do japim’ (Carlini & Caniato), ‘Vargas, um legado político’ (Carlini & Caniato), ‘Laurinda Frade, receitas da vida’ (Poiesis Editora) e das HQs ‘Radius’ (LM Comics), ‘Os canônicos’ (LM Comics) e ‘Onde nasce a Luz’ (Unimar – Universidade de Marília), ramonimprensa@gmail.com.
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