Desde 2014, mais de 71000 artigos.
,/2022

Europa pega fogo de Leste a Oeste

Coluna
26 de julho de 2022

Já foi o tempo em que morar na Europa é necessariamente uma experiência de vida tranquila ou de prosperidade estimulada por um estado de bem-estar social, que também não existe no seu formato clássico há uns 50 anos.

Da última década para cá, então, são cada vez mais comuns as notícias tristes no velho continente. Parece que em vários países a vida literalmente piorou, ou por causa da crise dos refugiados numa situação que opõe etnias ou devido a algumas economias pasmadas e em conflito com a União Europeia ou animosidades na geopolítica e redefinição das lideranças pós-Brexit ou mais recentemente com a acachapante guerra na Ucrânia ou, mais recentemente ainda, com essas ondas de calor que agonizam pessoas e matam outras da Escócia à Grécia.

Quer dizer, cair na fábula de que a vida do europeu está tão mais doce que a vida de um americano, o que poderia ser útil para pagar um caminhão de dinheiro em troca de cinco dias e quatro noites em Paris, é ou diletantismo de gente muito rica ou muita ingenuidade de gente que, como eu, pertence à indefinida classe média.

Mas, apesar dos pesares desta maré ruim que vive parte da Europa, vira e mexe aparecem entre as notícias tristes um elemento histórico básico de vários países europeus que são os protestos, quase sempre de jovens e hoje organizados especialmente pela pauta da crise climática global.

Muito embora seja um tema amplo social e tecnicamente falando, o resumo da ópera é não protelar a necessidade premente de tornar mais ecológico o estilo de produção industrial, pois, se foi na Europa que as indústrias começaram, é então razoável afirmar que desde os meados do século XVIII que elas alteram a composição básica da atmosfera com remessas brutais de enxofre, nitrogênio e sobretudo carbono, modificando a temperatura e a umidade do ar numa intensidade tal que hoje mata na escala de milhares de pessoas por ano.

A pergunta óbvia que fica no ar é se é possível compatibilizar nossa atual demanda por consumo de produtos duráveis e não duráveis com indústrias que, de alguma maneira, deixam de poluir na intensidade que se acostumaram há séculos. Questão esta que, para quem protesta, quase nada importa. Porque os protestos são, bem como a juventude que os organiza, tipicamente irreverentes.

No fim de junho um grupo de ativistas bloquearam a entrada do prédio do FMI em Paris colando suas mãos em uma porta de vidro, por onde reivindicaram a anulação das dívidas dos países pobres do hemisfério Sul para que eles possam enfrentar com mais recursos a crise o clima, de onde também era possível ler “anulem a dívida para um planeta vivo”.

No começo de julho, dia 4, dois membros do grupo de ambientalista Just Stop Oil colaram suas mãos na moldura de um quadro de aproximadamente 200 anos na National Gallery de Londres, isto depois de cobrirem a pintura de John Constable “The Hay Wain” com imagens alterando o aspecto original da paisagem preservada por outra contemporânea e poluída.

Um dia depoism, em 5 de julho, o mesmo grupo protestou na Royal Academy of Arts, colando as mãos na moldura de uma cópia do quadro “A Última Ceia” de Leonardo Da Vinci, além de escreverem na parede “no new oil” – sem óleo novo.

Nos dois casos, o grupo manifestou contra os novos licenciamentos para produção e uso de gás e petróleo no Reino Unido, sob o pretexto que isso deixará o mundo inóspito para centenas de milhões de pessoas no intervalo de poucas décadas. Eben Lazarus, um dos ativistas, disse “a pintura é parte importante da nossa herança, mas não é mais importante que 3,5 bilhões de homens, mulheres e crianças já em perigo por causa da crise climática.”

Climaticamente falando, a Europa é uma área pequena, porém complexa. Os países do Sul, especialmente Portugal, Espanha, Itália e Grécia são mais quentes e têm os verões mais secos, porque sua posição mediterrânea os coloca numa área de influência de massas de ar provenientes do Saara. Os países mais centrais, como Inglaterra, Escócia, Países Baixos, Alemanha, Polônia e França têm temperaturas mais amenas e invernos mais rigorosos e úmidos. Os países do Norte – destaque para os nórdicos, Suécia, Noruega, Finlândia, Islândia e Dinamarca – têm um clima subpolar ou polar, ou seja, estão habituados a temperaturas negativas que ocupam as médias durante pelo menos quatro meses do ano.

Em geral, portanto, na Europa não há muito preparo para o calor, quase ninguém tem ar-condicionado e as condições prediais domésticas estão equipadas para o frio que é mais convencional, com paredes grossas, portas duplas, pisos do carpete e sistemas de calefação. No entanto, só nas últimas semanas centenas de recordes de temperaturas máximas foram registrados com marcas entre 40 e 50 graus célsius!

Em Portugal, Espanha, França, Inglaterra, País de Gales, Irlanda, Itália, Suíça, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Dinamarca e Alemanha, por exemplo, o calor atípico é acompanhado também de períodos de seca que levam os países mais populosos a uma situação de estresse hídrico ou, para ser mais preciso, a um risco de que não haja água o suficiente para abastecer as cidades e os campos.

Físicos, geógrafos, climatologistas e meteorologistas, costumam explicar essas anomalias de temperaturas altíssimas combinadas com estiagens, a partir de um fenômeno no oceano Pacífico que ocorre não se sabe bem o porquê, chamado de La Niña, uma reorganização da circulação geral atmosférica do mundo com ventos equatoriais mais intensos que empurram as águas quentes do oceano para o Leste asiático.

Contudo, todas as outras pessoas que não olham para as dinâmicas de natureza do planeta enquanto uma profissão – isto é, literalmente quase todo mundo – não creem que seja normal um calor em Londres que derrete a pista do aeroporto ou um ar tão quente que provoca nas plantações de trigo da península ibérica incêndios bizarros.

Por isso, alguns até conseguem achar que essa juventude que protesta por aí em museus ou quaisquer outros eventos públicos têm sua razão em fazê-lo, afinal, para um futuro próximo de oito bilhões de habitantes, nossos filhos, nossos netos e nossos bisnetos, talvez seja melhor que o mundo não seja um grande deserto ou mesmo que a água não seja tão logo um artigo de luxo.