Brasil e Mundo

EUA miram Groenlândia para conter avanço da China nas rotas do Ártico, dizem analistas

Especialistas veem estratégia de Donald Trump para limitar influência chinesa e russa (Foto: Agência Brasil)

Os Estados Unidos pretendem ampliar sua presença na Groenlândia para reforçar o controle das rotas marítimas do Ártico e dificultar o avanço comercial e estratégico da China na região, segundo avaliam analistas de relações internacionais e geopolítica ouvidos pela Agência Brasil. O interesse de Washington está ligado à importância crescente do Oceano Ártico, que conecta Ásia, Europa e América do Norte e tende a ganhar relevância com o derretimento das calotas polares.

Especialistas apontam que as mudanças climáticas devem reduzir o gelo marinho e baratear o custo do frete nas rotas árticas nas próximas décadas. De acordo com observações da Nasa, o gelo marinho no Ártico diminui cerca de 13% por década. Já o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), avalia que o oceano pode ficar praticamente sem gelo entre 2050 e 2070.

Em documento publicado em 2018, a China se definiu como um país “quase-ártico” e tem intensificado sua atuação na região em cooperação com a Rússia. Para o major-general português Agostinho Costa, especialista em segurança e geopolítica, os Estados Unidos já exercem controle sobre as principais rotas marítimas globais, mas mantêm presença reduzida no Ártico.

Groenlândia entra no radar dos EUA em disputa geopolítica no Ártico (Foto: Agência Brasil)

“[A anexação da Groenlândia] é uma política de controle de rotas marítimas com o objetivo de bloquear a China. Os EUA controlam o Pacífico e o Atlântico, agora falta controlar o Ártico. Eles vivem mal com a ideia de, em um oceano tão importante como é o Ártico, ter uma presença residual”, afirmou Costa, ex-vice-presidente da Associação EuroDefense-Portugal.

Segundo o especialista, a redução do gelo deve encurtar o tempo de navegação entre a China e a Europa. “Com o aquecimento global, a rota do Ártico diminui o tempo de navegação entre a China e a Europa”, disse, ao lembrar que cerca de 80% do comércio global é realizado por vias marítimas. O cientista político Ali Ramos acrescenta que o derretimento das calotas pode reduzir em mais de um terço o custo do frete marítimo entre continentes.

Ramos destaca ainda o papel da Rússia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na região. “A Rússia tem mais que o dobro de bases da Otan no Ártico e a China recentemente emitiu um documento se considerando um país do entorno do Ártico, provavelmente em colaboração com os russos. O Trump precisa do Canadá e da Groenlândia para dissuasão, bases, mísseis e etc”, afirmou.

Em estratégia divulgada em 2024, ainda durante o governo de Joe Biden, o Departamento de Defesa dos EUA apontou o Ártico como área-chave para conter rivais globais. “Grandes mudanças geopolíticas estão impulsionando a necessidade desta nova abordagem estratégica para o Ártico, incluindo a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, a adesão da Finlândia e da Suécia à Aliança da Otan, a crescente colaboração entre a República Popular da China (RPC) e a Rússia e os impactos acelerados das mudanças climáticas”, diz o documento.

Rússia, de Wladimir Putin, concentra cerca de 54% do litoral do Ártico (Foto: Agência Brasil)

A Rússia concentra cerca de 54% do litoral do Ártico, o que lhe confere posição estratégica para influenciar as rotas marítimas. Em artigo publicado pelo Instituto do Ártico, o especialista Lee Mottola avalia que, caso a Rota Marítima do Norte se torne essencial para o comércio global, Moscou poderá usar esse controle como instrumento econômico e diplomático.

Mottola afirma ainda que a China vê o Ártico como alternativa para contornar pontos de estrangulamento controlados pelos Estados Unidos, como os estreitos de Malaca e de Gibraltar. “A continuidade da cooperação sino-russa em fatores econômicos e estratégicos é uma razão importante para que a Otan redobre seus esforços e atenção no Norte”, escreveu.

Com cerca de 56 mil habitantes, a Groenlândia é um território semiautônomo ligado ao Reino da Dinamarca. Desde o início de seu segundo mandato, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem feito declarações sobre a possibilidade de anexação do território, o que tem sido criticado por aliados europeus.

“Precisamos da Groenlândia para nossa segurança nacional. Se você olhar para Groenlândia, olhar para cima e para baixo da costa, tem navios russos e chineses por todas as partes”, afirmou o presidente norte-americano, um dia após ordenar bombardeios e a invasão da Venezuela. Para Agostinho Costa, a postura do governo Trump resgata práticas de séculos passados. “É uma estratégia que nos faz voltar ao século 15 ou 16, da pirataria, do controle dos mares”, concluiu.

Agência Brasil

Recent Posts

Justiça determina perícia íntima em réu do caso Mateus

Mateus Bernardo foi morto por vizinho e teve o corpo esquartejado (Foto: Divulgação) Aviso de…

11 minutos ago

Moradas Imóveis bate recorde com 1.519 vendas e amplia participação no mercado local em 2025

Equipe Moradas Imóveis celebra sucesso do ano anterior (Foto: Gracy Santos/Marília Notícia) A Moradas Imóveis…

51 minutos ago

Mãe procura a polícia após desaparecimento da filha e dos quatro netos em Garça

Emília Cristina Meira Porcari tem 30 anos e está desaparecida junto com os filhos (Foto:…

52 minutos ago

Dupla é presa em Marília com arma, dinheiro e cartões após estelionato contra idoso

Arma, roupas, celulares e objetos apreendidos; suspeitos ostentavam poder aquisitivo (Foto: Divulgação/PM) Dois homens foram…

2 horas ago

Deputada Dani Alonso aprova projeto ‘Selo Mulher Paulista’ na Alesp

Objetivo da iniciativa, segundo a deputada estadual, é reconhecer municípios que se destacarem na promoção…

2 horas ago

Marília inicia levantamento que indica nível de infestação do Aedes

A Prefeitura de Marília inicia nesta segunda-feira (12) o primeiro Levantamento de Índice Rápido para…

3 horas ago

This website uses cookies.