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Em dois meses, coronavírus mata mais que Sars

Geral
10 de fevereiro de 2020

Pouco mais de dois meses depois do registro dos primeiros casos, o coronavírus já superou o surto de pneumonia causada pelo vírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), em 2002 e 2003.

A Comissão Nacional de Saúde da China informou que o coronavírus matou, desde dezembro, 908 pessoas ante 774 mortes registradas no surto da Sars.

O novo coronavírus assusta pela rapidez da sua transmissão. Enquanto o vírus da Sars demorou três meses para infectar pessoas fora da China – país onde foi registrado o primeiro caso -, o novo coronavírus alcançou o feito em um mês.

O vírus da Sars infectou 8 mil pessoas em cerca de dez meses de surto. Já o novo “membro” da mesma família viral já deixou mais de 40 mil pessoas doentes em dois meses. Há ainda quase 29 mil casos suspeitos.

Segundo especialistas, o novo vírus, embora ainda em estudo, parece ter características que o fazem mais transmissível e adaptável ao ser humano. Porém, a transformação radical pela qual a China passou nas últimas duas décadas pode ter ajudado o novo corona a ser mais eficiente na busca por novos hospedeiros

“Há aspectos ligados ao vírus e relacionados à nossa cultura e sociedade que influenciam na velocidade de transmissão”, diz Celso Granato, professor de infectologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor médico do Grupo Fleury.

A sociedade chinesa de hoje é completamente diferente daquela de duas décadas atrás. E, no caso de um surto, isso tem aspectos positivos e negativos.

Segundo o Banco Mundial, a China de 2002, que vivenciou o surto de Sars, tinha só 38% da sua população em área urbana. A China de 2020 tem mais de 60% dos seus habitantes morando em cidades, o que aumenta o adensamento populacional e o contato entre as pessoas. Nesse período, a China ganhou pelo menos 100 milhões de pessoas.

Na China de 18 anos atrás, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita era de U$ 1.110 (cerca de R$ 4.808). Quase duas década depois, o valor cresceu mais de oito vezes, passando a U$ 9.460 (R$ 40,8 mil). O crescimento econômico e a modernização levaram mais empresas ao país e propiciaram que mais chineses viajassem para destinos domésticos e internacionais.

“Quando aconteceu a epidemia da Sars, entre 2002 e 2003, o PIB chinês representava 4,4% do PIB mundial. Hoje, representa 15%. É a segunda maior economia do mundo, mais pessoas foram para a classe média e o fluxo de chineses no exterior é impressionante”, diz Evandro Menezes de Carvalho, coordenador do Núcleo de Estudos Brasil-China da Fundação Getulio Vargas (FGV) Direito-Rio.

Para Deisy Ventura, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, o avanço da tecnologia e a consequente globalização trazem como “efeito colateral” um risco maior de propagação de doenças. E na China, o risco acaba maximizado.

“Com mais tecnologia, o tráfego de pessoas é cada vez mais intenso. Em 2019 foram 1,5 bilhão de viagens internacionais. É um cenário internacional de propagação de doenças. Mas pelas características demográficas da China e da relação que existe entre o homem e o animal, imaginávamos que a primeira pandemia viria de lá”, diz Daisy. “A primeira foi no México, com o surto de H1N1, mas agora estamos vendo o novo coronavírus.”

Para Deisy, considerando que os deslocamentos internacionais e a globalização só vão se intensificar, é importante investir em saúde e ciência para lidar com novas ameaças.

Características

Quanto às características de cada vírus que o tornam mais ou menos transmissível, especialistas destacam vários fatores, como a via de transmissão, sua capacidade de se adaptar a um novo hospedeiro, o tempo que sobrevive suspenso no ar e sua velocidade de replicação. Os vírus de transmissão respiratória costumam ser os mais “eficientes” na contaminação. Mas outro ponto importante é o quanto o vírus consegue se adaptar a diferentes tipos de hospedeiro – animal ou humano.

“Alguns têm mais facilidade de aderir às nossas células e aos nossos receptores virais. Esse parece estar se adaptando melhor ao ser humano do que os coronavírus da Sars e da Mers (Síndrome Respiratório do Oriente Médio)”, explica Nancy Bellei, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

O local onde o vírus gosta de ficar também pode interferir no seu potencial de transmissão. “O vírus da Sars ficava mais concentrado na parte baixa do sistema respiratório, nos pulmões. Outros vírus ficam mais concentrados na parte superior, como nariz, garganta. Esses são mais transmissíveis”, diz Granato.

A boa notícia é que, caso o novo coronavírus esteja se adaptando bem ao ser humano, a tendência é que ele continue provocando quadros mais leves. “Ele tende a provocar doenças menos graves por uma questão evolutiva”, afirma Granato. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.