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Do que é feito um amigo

Coluna
25 de fevereiro de 2022

Empresário Eduardo Ferreira morreu no último dia 17 vítima de mal súbito (Foto: Divulgação/Redes Sociais)

Minha primeira lembrança é da escadaria que leva ao pátio do Colégio Cristo Rei, é ali que tenho minha memória mais antiga do Eduardo, em algum momento do ensino fundamental. Era uma escada de um tipo de pedra amarronzado, bem longa e larga. Na parte de cima, um pequeno pátio levava ao prédio com as salas de aula, embaixo havia o pátio, o bebedouro, cantina, e um canto que levava à sala dos escoteiros, era ali que o Du, nossos amigos e eu ficávamos sentados nos intervalos.

Desde essa época ele já era muito enérgico e barulhento, e eu tinha medo dele, coisa de criança. O Du treinava natação no clube, ia para a escola, jogava Magic, andava de bicicleta. Mas o que eu mais lembro é que ele lia muito desde aquela época, assim como eu. Para mim, naquele tempo, um amigo era feito de livros.

Eu passava boa parte do meu tempo livre lendo livros, tanto os da escola quanto outros como Harry Potter, As Brumas de Avalon, O Senhor dos Anéis, hábito que poderia ser considerado coisa “de nerd”. Mas, o Du também lia, então não poderia ser isso, até porque se outra criança falasse algo a respeito do que ele lia, ele iria responder à altura, no ato, com um sonoro palavrão. Então, se o Du podia ler essas coisas, eu também podia, e ler era legal e natural.

Os dias de colégio foram passando e por uma surpresa do destino, acabamos indo para a faculdade de direito juntos, e eu descobri que um amigo também era feito de música.

A Fundação (Eurípides Soares da Rocha – hoje Univem) tem um estacionamento imenso e todo arborizado, que fica atrás do prédio principal e era bem comum ver o carro do Du entrando e saindo de lá nas manhãs com os vidros abertos e o som bem alto tocando Led Zeppelin, Slipknot, Rage Against The Machine, Pink Floyd, AC/DC… E eu me lembro de andarmos para cima e para baixo ouvindo rock!

De repente crescer era uma aventura divertida, cheia de histórias para contar e, ainda que houvesse medo, eu tinha um amigo que parecia não temer nada e isso me ajudou nos meus primeiros passos de vida adulta. Ele tinha mesmo esse jeitão, a personificação de uma vida que só anda para a frente, alguém que sempre soube quanto dura e vale cada instante.

Os anos de amizade foram se seguindo e pude testemunhar o que ficou de mais precioso do meu amigo Eduardo, porque amigos também tem super poderes, e o do meu era o da união. Ele não só fazia novos amigos, como fazia com que seus amigos também partilhassem das novas companhias. Era a força do seu espírito expansivo, divertido, intenso, teimoso e muito justo, aproximando as pessoas que ele gostava.

Esse foi o presente que você me deu, Du, através de tudo que você foi e sempre será eu conheci muitas pessoas, fiz muitos conhecidos e vários amigos. Amigos feitos de tantas coisas, de livros, de músicas, de risadas, de histórias e de mais amigos, cujas vidas jamais seriam as mesmas uma vez tendo você como amigo, e cujas vidas jamais serão as mesmas tendo a alegria de ter um pedaço de você eternamente dentro de cada um de nós. Vá em paz, Caixinha!

* Artigo produzido por Renato Gelsi Alves em 21 de fevereiro de 2022