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Crie cactos, não expectativas! Ou quem sabe pratique Mindfulness

Coluna
18 de abril de 2019

Se é para ganhar (e proporcionar) qualidade de vida, que tal tentar a Atenção Plena?

Recentemente ouvi “Crie cactos, não expectativas, mesmo que sejam cheio de espinhos, eles não precisam ser alimentados, iluminados, não precisam de nada, não nos causam ansiedade, estresse, ao contrário das expectativas, essas sim aceleram nosso pensamento e nos fazem mal”. Apesar de engraçada, a colocação me fez refletir que uma vida sem nenhuma expectativa seria tão sem graça quanto ter uma plantação de cactos e que talvez o mais adequado seria aprender a lidar com as expectativas e não suprimi-las de nossa vida.

E então, entre as inúmeras pesquisas diárias como discente de psicologia eis que me deparo com alternativas. E quando se fala em alternativas para combater a ansiedade crônica, dificuldade em se manter no momento presente, estresse, raiva, baixa produtividade, frustrações e o pensamento acelerado, certamente é muito comum encontrar material sobre meditação.

No entanto, atualmente um uma modalidade está ganhando repercussão e novos adeptos, até mesmo entre aqueles que se diziam não ter paciência para meditar, é um novo conceito chamado Atenção Plena ou Mindfulness.

A Atenção Plena, trata-se, sim, de uma técnica de meditação e exercícios de tradição asiática, mas que foi adaptada para o Ocidente e sua dinâmica vem desempenhando um papel importante em várias formas recentes de psicoterapia, programas de redução do estresse baseado na mente alerta e a terapia de aceitação e compromisso.

De acordo com a literatura sobre o tema, a ideia é ensinar a ter foco no momento presente e não nas expectativas para o futuro ou nos traumas do passado. Isso com a ajuda da respiração e foco na postura corporal.

A ideia central na literatura sobre Mindfulness é que viver sob o comando do piloto automático não permite à pessoa lidar de maneira flexível com os eventos do momento. Confiar no piloto automático promove formas rígidas e altamente limitadas de reagir ao ambiente ao invés lidar com assertividade diante dos problemas, frustrações e dificuldade do dia a dia.

A técnica hoje pode ser aprendida em salas de aula, audioguias e livros, por exemplo, como o The Mindful Athlete (O Atleta Mindful, sem edição no Brasil, mas com muitas referências na internet), do psicólogo George Mumford, o “mestre do fluxo” famoso por trabalhar com atletas de alta performance ou Atenção Plena: Mindfulness dos autores Mark Williams e Danny Penman, em listas dos mais vendidos recentemente.

Treinar uma pessoa a “domar” os pensamentos que causam ansiedade e reduzir os níveis de estresse é o que promete o Mindfulness e há estudos indicando que este treino é eficaz na diminuição de problemas psicossomáticos (Grossman, Niemann, Schmidt & Walach, 2003), dor crônica (Kabat-Zinn, Lipworth, Burney & Sellers, 1986), fibromialgia (Kaplan, Goldenberg & Galvin, 1993), transtornos de ansiedade (Kabat-Zinn et al., 1992; Roemer & Orsillo, 2002), psoríase (Kabat-Zinn et al., 1998) e outros.

Os exercícios formais incluem, além da varredura mental do corpo e a meditação em posição sentada, com concentração na respiração, também práticas de alongamento (que exploram sensações corporais como tensão, dor, outros); e técnicas meditativas adotadas do yoga. O alvo é vivenciar a respiração, os pensamentos, e os outros conteúdos sem querer mudá-los ou controlá-los, ou seja, permitir-se conscientemente observar o que está acontecendo no presente. Já os exercícios informais consistem em vivenciar situações do cotidiano de maneira plenamente consciente, com a atenção focada no que está acontecendo, sem julgar ou racionalizar. Pode ser situações como subir a escada, trabalhar, fazer atividades em casa, estar com amigos, ou qualquer outra atividade.

Estes exercícios enfatizam vivenciar plenamente e sem preconceito experiências positivas e negativas. Ao estar intencionalmente atento no aqui e agora, permite-se lidar de maneira criativa com situações cotidianas.

Existe um debate sobre a utilização da técnica em psicoterapia (comportamental, principalmente) e sua semelhança com costumes tradicionais de algumas religiões (como o Sati do budismo) no entanto, com fé ou sem, a ciência já mostrou que a meditação é capaz de diminuir dores crônicas e pressão arterial, manter o cérebro jovem (a ponto de pesquisas investigarem sua eficácia na prevenção do Alzheimer), evitar crises de ansiedade e depressão e aumentar a criatividade e os resultados nas escolas e no trabalho.

Se é para ganhar (e proporcionar) qualidade de vida, que tal tentar a Atenção Plena? Afinal, se você se estressa menos, controla suas expectativas e é mais feliz, seu comportamento poderá reverberar, consequentemente as pessoas com quem você convive poderão ser alcançados por sua paz. E, nada contra os cactos, eles são bem bonitos para decoração, mas a vida pede ação.

Dicas de leitura:

  • Atenção Plena: Mindfulness – Autores: Mark Williams e Danny Penman
  • Viver a Catástrofe Total – Autor: Jon Kabat-Zinn
  • Manual Prático de Mindfulness: Curiosidade e Aceitação – Autores: Javier Campayo e Marcelo Demarzo
  • Viver bem com a dor e com a doença: O Método da Atenção Plena – Autora: Vidyamala Burch
  • Prevenção de Recaída Baseada em Mindfulness para Comportamentos Aditivos: Um guia para o clínico – Autores: Sarah Bowen, Neha Chawla, G. Alan Marlatt
  • Mindfulness: Atenção Plena no Movimento – Uma vida mais feliz, mais saudável com a meditação centrada no corpo – Autor: Tamara Russel