“Chorei, fiquei muito emocionada em saber que eu consegui”. A declaração de alívio da dona de casa Gislaine dos Reis Soares dos Santos, de 39 anos, resume o significado da manhã desta última quarta-feira (15) para pacientes oncológicos atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na região de Marília.
Moradora de Garça, ela se tornou a primeira paciente a realizar radioterapia integralmente custeada pelo SUS no Hospital Beneficente Unimar (HBU), exatamente duas semanas após a habilitação do acelerador linear pelo Ministério da Saúde.
Em tratamento contra um câncer de mama, com comprometimento da região da axila, Gislaine contou que precisou tomar um analgésico forte antes da sessão para conseguir levantar o braço durante o procedimento. Segundo ela, a limitação é consequência da cirurgia realizada como parte do tratamento. “Eu fiz a cirurgia, aí eu perdi um pouco do movimento”, relatou.
Gislaine tem feito todo o tratamento no HBU. Ela explicou que o diagnóstico começou na rede pública de saúde e evoluiu rapidamente para o atendimento especializado. “Eu comecei o tratamento no posto de saúde, aí já encaminhada rápido para fazer a quimioterapia. Como o meu nódulo é mais grave, depois eu fiz a cirurgia”, contou.
Casada e mãe de duas filhas, Gislaine destacou o apoio recebido da família durante todo o processo. Na primeira sessão de radioterapia, esteve acompanhada da filha caçula, Ana Julia, de apenas quatro anos, que se tornou uma das maiores fontes de motivação durante o tratamento.
“Ela me deu muita força quando precisei usar o gorro. Disse que não se importava que eu ficasse careca”, contou. A paciente afirmou que o câncer foi identificado por acaso, enquanto procurava atendimento médico para a filha.
“Eu fazia unha, eu era manicure e fazia ainda. Tinha uma renda. Corri para um posto de saúde porque a minha filha estava doente. Nesse dia, eu senti um nódulo no seio de uns três centímetros. Quando fui fazer a cirurgia ele já estava com oito centímetros”, contou.
Precisão radiológica
A entrada em operação da radioterapia 100% SUS representa um novo momento para o serviço oncológico do Hospital Beneficente Unimar. Responsável técnico pelo setor, o físico-médico Mateus Hilário de Lima afirmou que a equipe aguardava a habilitação para ampliar o acesso ao tratamento com a tecnologia disponível no acelerador linear.
“A gente está muito feliz porque desde o início porque queria disponibilizar toda a tecnologia que esse acelerador tem para pacientes que necessitam, inclusive os mais vulneráveis. É uma conquista grande para o serviço”, afirmou.
Segundo o especialista, a principal vantagem do equipamento está na elevada precisão da radiação aplicada, permitindo atingir o tumor com maior exatidão e preservar estruturas saudáveis ao redor.
“Esse equipamento tem uma capacidade de entregar uma precisão maior. Isso melhora o controle da doença. A gente consegue poupar tecido que não tem interesse de radiar e que poderia trazer efeitos colaterais. Isso maximiza o potencial de tratamento”, explicou.
Outros beneficiados
Embora esta tenha sido a primeira sessão realizada após a habilitação oficial do Ministério da Saúde para atendimento integral pelo SUS, Lima ressaltou que pacientes da rede pública já vinham sendo tratados anteriormente por iniciativa do próprio hospital.
“O equipamento está operando desde setembro de 2024. Há uma parcela do SUS dentre os nossos pacientes. Foi uma decisão do hospital, por mais que isso gerasse custos, para que a gente já começasse a disponibilizar esse tratamento.”
Com a habilitação federal, a expectativa é ampliar gradualmente a capacidade de atendimento. Atualmente, as sessões ocorrem apenas no período da manhã, mas a estrutura já se prepara para expandir o funcionamento conforme a demanda.
“Até agora a gente está atendendo no período da manhã, mas já preparando para abrir um segundo ou terceiro turno à medida que esses pacientes começarem a entrar”, disse.
Serviços de oncologia
A radioterapia integra os serviços oferecidos pelo Hospital Oncológico Unimar (HOU), pertencente ao Complexo Hospital Beneficente Unimar. A estrutura concentra em um único local diagnóstico, cirurgias oncológicas, oncologia clínica, quimioterapia, exames de alta complexidade — como PET-CT — e atendimento multidisciplinar voltado ao tratamento integrado de pacientes com câncer.
A habilitação do acelerador linear pelo Ministério da Saúde representa um avanço pacientes que, até então, dependiam de deslocamentos ou de filas no Hospital das Clínicas (HC) ou na Santa Casa de Marília, onde o procedimento também é oferecido. A primeira sessão realizada pela garcense Gislaine simboliza, assim, o início de uma nova etapa para a oncologia pública na região.
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