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Camelódromo transformado: desafio em oportunidades

Solucionar o impasse do camelódromo mariliense vai muito além de remédios jurídico-administrativos. Complexa, a questão envolve aspectos sociais, econômicos e urbanísticos, com forte impacto na sobrevivência de pequenos comerciantes. Nesse contexto, é fundamental garantir o sustento desses trabalhadores e promover a ordem no espaço urbano.

Um dos primeiros passos seria realocá-los gradualmente nas diversas regiões da cidade, formando polos de desenvolvimento em áreas periféricas, focando em setores específicos da economia e atraindo investimentos para estas áreas, reduzindo a concentração e seus impactos negativos. Esta medida encurtaria distâncias entre residência e local de trabalho de muitos camelôs, aproximando o comércio dos consumidores, especialmente daqueles que não têm o hábito de frequentar o centro da cidade.

No campo urbanístico, é preciso planejar espaços comerciais adequados e voltados para acomodar as relações comerciais informais. Revitalizar áreas específicas da cidade oferece infraestrutura adequada para os camelôs e garante ainda mais segurança pública de qualidade ao cidadão.

Outra estratégia relevante é a de capacitar os comerciantes informais. Oferecer programas com cursos de gestão, finanças e atendimento ao cliente poderia, além de garantir maior qualidade nos serviços, estimular os camelôs a se tornarem microempreendedores individuais (MEI), possibilitando sua inserção no mercado formal.

Alinhado a isso, é imprescindível desenvolver programas e políticas públicas incentivadoras da geração de empregos formais e de oportunidades de trabalho. Isso minimizaria a dependência do comércio informal como única fonte de renda para muitas pessoas, proporcionando mais estabilidade e segurança financeira.

Opção poderosa é a de estimular a integração dos comerciantes informais junto a lojistas e a centros de compras (shoppings). Dessa forma, produtos e serviços dos camelôs poderiam ser vendidos em espaços regulares, ampliando sua visibilidade e alcance.

Impulsionar parcerias assim, com o setor privado, atraem mais clientes para esses espaços vibrantes. Como? Vejamos algumas possibilidades:

  • firmar parcerias com empresas de transporte público nos pontos terminais de ônibus nas regiões periféricas é uma oportunidade imperdível. Aproveitaria-se a alta circulação de pessoas para impulsionar o comércio popular e para transformar a realidade dos empreendedores informais;
  • eventual acordo com concessionária logística da ferrovia que corta a cidade, estimulando a implantação e o uso de modal por trem urbano ou turístico entre distritos, criando polos comerciais a cada estação de embarque e desembarque, aliado à estrutura de lazer turismo. O município paulista de Guararema é ótimo caso para análise de melhores práticas neste segmento;
  • Projetos de Parcerias Público-Privadas (PPPs) para construir e administrar centros de comércio popular. Juntos, poder público e empresas especializadas nesse tipo de empreendimento criariam espaços prósperos e sustentáveis para os nossos comerciantes informais;
  • incentivos fiscais são atraentes a empresas privadas. Por eles, garantiria-se benefícios a parceiros que destinassem parte de seus espaços comerciais para abrigar camelôs e ambulantes, promovendo um comércio inclusivo e repleto de oportunidades;
  • empresas comprometidas com o desenvolvimento da nossa cidade podem também contribuir com recursos para a adequação de locais já existentes e capacitação dos camelôs: fortaleceriam suas marcas no campo da responsabilidade social corporativa;
  • requalificar áreas subutilizadas ou invadidas é transformador. Com parcerias estratégicas, semearia-se verdadeiros centros de comércio popular, gerando novas oportunidades para nossos empreendedores, revitalizando áreas urbanas;
  • valorizar a cultura local e a produção artesanal é vital ao sentimento de unidade da nossa cidade. Inserir os comerciantes informais em centros de economia criativa e espaços de economia colaborativa é uma forma de ressaltar a vocação e a identidade urbana;
  • mercados populares e, principalmente, feiras são tesouros bastante frequentados da nossa cidade. Estimular empresas a apoiarem a organização e a infraestrutura desses eventos promoveria o comércio informal de forma controlada e atraente aos consumidores.

A incorporação de espaços de comércio popular em complexos imobiliários é outra forma de parceria com segmentos privados, estratégia bem-sucedida em diversas cidades no Brasil e ao redor do mundo.
O Mercadão de São Paulo, o Saara no Rio de Janeiro e o Mercado Modelo em Salvador são exemplos brasileiros notáveis de como essa abordagem pode ser eficiente.

Ao redor do mundo, métodos semelhantes: os Mercado de Sant’Antoni e de La Boqueria em Barcelona (Espanha); a Zona Rosa na Cidade do México; o Victoria & Alfred Waterfront na Cidade do Cabo (África do Sul), além do bairro La Candelaria em Bogotá, onde foram realizadas parcerias para revitalizar áreas históricas e integrar o comércio popular a espaços modernos, ao mesmo tempo em que se preserva a identidade cultural da região.

Monitorar constantemente os impactos das mudanças propostas, avaliar os resultados e fazer ajustes conforme necessidades é indispensável para o sucesso das medidas.

Destaque-se que todas essas propostas devem ser acompanhadas de medidas de amparo social e suporte financeiro para os comerciantes afetados. Garantir oportunidades de trabalho digno e sustentável é crucial para o sucesso dessas iniciativas.

O diálogo entre a sociedade civil e representantes dos camelôs deve permear todas as fases. Incluir cria sinergia e harmonia, permitindo que as decisões sejam tomadas de forma mais democrática e mais equânime.

Resumo: a solução para o impasse do camelódromo mariliense exige um conjunto de medidas integradas, incluindo realocação gradual, capacitação dos comerciantes informais, estímulo ao emprego formal, planejamento urbano adequado e parcerias com o setor privado. Tudo isso com os devidos acompanhamento e diálogo, garantindo o bem-estar e o desenvolvimento sustentável da cidade.

Juntos, podemos transformar o desafio do camelódromo em oportunidades inovadoras e de desenvolvimento para nossa cidade.

Juntos, podemos prosperar.
Sucesso. Sempre.


Marcos Boldrin é ex-Secretário da Administração e do Meio Ambiente, Urbanista, Palestrante e Coronel da reserva

Marcos Boldrin

Marcos Boldrin é coronel da reserva, urbanista e arquiteto de formação, e ex-gestor público estadual e municipal

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