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Antes mesmo de nascer, já era amor

Dra. Fernanda Simines Nascimento é médica psiquiatra (Foto: Divulgação)

Há vínculos que não começam no primeiro choro.
Começam antes. No silêncio do corpo que abriga. No útero que não é apenas biológico, mas psíquico — um espaço onde já se inscrevem as primeiras marcas de existência.

A maternidade, quando atravessada pelo afeto, é o primeiro gesto de acolhimento que um ser humano conhece. Antes da linguagem, antes do mundo, antes mesmo de haver memória, há um encontro: o de um corpo que sustenta e de uma vida que, ainda sem nome, já é desejada — ou ao menos, percebida.

A psicanálise nos ensina que o início da vida não é neutro.
Melanie Klein, ao estudar as relações iniciais entre o bebê e a mãe, descreveu que o psiquismo se organiza a partir dessas primeiras experiências de cuidado — ou de sua ausência. Não se trata apenas de alimentar ou proteger. Trata-se de algo mais sutil e mais determinante: a capacidade de acolher emocionalmente.

Ser acolhido é, antes de tudo, ser reconhecido.

É na presença de uma mãe suficientemente disponível — não perfeita, mas implicada — que o bebê começa a construir suas primeiras noções de segurança. O colo não é apenas físico; ele é também simbólico. Ele diz, sem palavras: “o mundo pode ser habitado”.

E quando isso acontece, algo fundamental se organiza: a confiança básica. Aquela que, mais tarde, permitirá amar, trabalhar, suportar frustrações — viver.

Mas nem sempre há acolhimento.
E quando ele falha, não falha de maneira banal. Falha naquilo que é estrutural. A ausência de um olhar, de uma presença que sustente, pode reverberar por toda uma vida — muitas vezes sendo traduzida em sintomas que, na clínica, escutamos diariamente.

Talvez por isso, na vida adulta, tantos ainda busquem — em relações, em excessos, em silêncios — aquilo que um dia faltou: um lugar onde pudessem simplesmente existir sem ameaça.

Amar um filho começa muito antes de conhecê-lo.
Começa na forma como se pensa esse filho. Na forma como se sonha. Na maneira como se sustenta sua chegada, não apenas no corpo, mas no desejo.

E, ainda assim, é preciso dizer: não existem mães ideais.
Existe o possível. E, muitas vezes, é esse possível — imperfeito, humano, mas verdadeiro — que salva.

Porque o amor materno não se mede pela ausência de falhas, mas pela presença de vínculo.

E há mães que, mesmo diante de todas as limitações do mundo, conseguem oferecer isso: presença. Uma presença que não invade, mas também não abandona. Que sustenta sem sufocar. Que permite ir, sabendo que sempre haverá para onde voltar.

Como na canção de Caetano Veloso:
“Quando você me deixou, meu bem / Me disse pra ser feliz e passar bem”
— há, no amor verdadeiro, algo de paradoxal: ele não aprisiona. Ele autoriza a vida.

Hoje, escrevo não apenas como psiquiatra, mas como filha.

E talvez tudo o que foi dito até aqui encontre sentido mais simples — e mais verdadeiro — nessa condição.

Porque há nomes que carregam em si a experiência concreta de tudo isso.

À minha mãe, Maria de Fátima Simines Nascimento,
que me acolheu antes mesmo de eu existir no mundo,
que me sustentou quando eu ainda não sabia cair,
e que, mesmo sem saber, construiu em mim a base de tudo o que hoje sou.

Neste dia 8 de maio, celebro não apenas o seu aniversário,
mas o seu modo de amar —
esse que não se ensina, mas se transmite.

E que, felizmente, nunca termina.

***

Dra. Fernanda Simines Nascimento é médica psiquiatra (CRM-SP 198.541/RQE 124.287)

Fernanda Simines Nascimento

Dra. Fernanda Simines Nascimento formou-se pela Faculdade de Medicina de Marília (Famema), onde também concluiu sua residência médica em psiquiatria.

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