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A primeira regra da democracia: em quatro dias e sem mágica

Há mais nas relações do dia a dia em uma democracia do que nos fazem crer, assim como há mais sinais e informações entre as garras de um grande felino do que restos de terra e vegetais nos induzem a imaginar.

Estudo realizado pelo Instituto de Genoma Pessoal da Coreia do Sul, com universidades e instituições da China, Rússia, Namíbia, África do Sul e Arábia Saudita, atesta que esses gatões já nascem com instinto “assassino”.

Por que naturalmente assassinos?

Segundo os autores, a genética e a adaptação predatória definem tanto a dieta carnívora quanto a força muscular destes animais: são caçadores natos.

Somos assim também.

Desde os primeiros “Homo sapiens”, tentamos caminhos para avançarmos num mundo de violência: entre céus e terra, tudo ou fornece energia ou a consome – princípio da matança entre espécies.

Pela primeira vez em toda história, vivemos um pequeno milagre no tempo hominídeo: sequer alguém precisa matar para defender o que é seu – sua casa, seu carro, seu aparelho eletrônico ou sua honra: entregamos ao Estado democrático esse papel para mantermos nossas mãos, consciências e espíritos limpos.

Povos tribais, na ausência de um governo no formato como conhecemos, tendem a criar ciclos de ataques com taxas de mortalidade superiores até às das sociedades modernas em seus períodos mais violentos.

Se duvida, abra o antigo testamento cristão, leia qualquer história e olhe ao redor: verá o quanto pacificamos.

Posteriormente, governos da antiguidade moderaram seus povos intervindo diretamente e reduzindo a violência mutuamente destrutiva, mas os submeteram a um império de terror que incluía escravidão, sacrifícios humanos, estupros, intimidações e execuções sumárias, além de tortura e mutilação aos que consideraram desviantes.

Os dois extremos – gestões tribais e despóticas – cercam esta ilha chamada humanismo e, hoje, somente o regime democrático nos orienta e conduz à ela.

Evoluímos: podemos questionar e até ofender autoridades com a certeza de que não nos enviarão a paredões de fuzilamento – acompanhamos isso no último fim de semana com a ofensa de um ex-parlamentar a um membro do STF e seus desdobramentos surreais, mas nada fora garantias consolidadas na legislação brasileira.

Nossas crianças e nossos idosos estão amparados por mecanismos contra o trabalho forçado ou escravo que, até recentemente, matava mais que Freddy Krueger (A Hora do Pesadelo), Michael Myers (Halloween) e Jason Voorhees juntos (Sexta-Feira 13).

Temos, em relação aos nossos antepassados, mais liberdade, igualdade, direitos civis e nenhuma guerra, seja ela externa ou civil. Repito: nenhuma – mesmo que alguns tentem criar clima de pavor com raciocínios desequilibrados e com vocabulário típico de tempos bélicos ou da hecatombe final: “Brasil vai às urnas no meio de uma guerra santa”, “volta às trevas”, “eleitores entram na mira”, “combate entre partidos”, “estratégia de confronto”, “visões de dois mundos diferentes”, “polarização”, “extremismo” e “radicalismo”.

Parcela que não sabe outra além da receita que só se repete em ôcas palavras – bijus em suas frágeis cascas mortas.

Estas conquistas pacificadoras, que ganhamos dos nossos antepassados pelo simples fato de nascermos, não caíram dos céus: herdamos daqueles que hoje enriquecem nosso solo, nossa cultura e nossa história; os honramos ao respeitar estes institutos sociais criados por eles com tanto esforço.

Precisamos conservar esta obra-prima do espírito humano.

Carecemos mais: reformar para conservar – há farto campo para melhorias, para progredirmos.

Paz é melhor do que destruição. Segurança, ao invés do perigo e medo. Liberdade é melhor do que tirania. Direitos iguais são melhores do que discriminação. Abundância é melhor do que pobreza.

Felicidade é melhor do que tristeza.

Tudo isso é mensurável e aquilo que é medido pode aumentar.

Progresso é isso: aumentar o que nos faz melhores.

Conservar e progredir: bandeiras que parecem antagônicas. Em verdade, são complementares e cimentam: sua combinação integra, gera sentimento de união.

Mas há algo mais profundo que os “haters” e a imprensa marrom não percebem quando nos jogam uns contra os outros: expressam-se por uma visão apocalíptica que nunca se concretizará, iludem sob a névoa de que tudo está perdido à escolha de um governante que não simpatizamos, independentemente de quem seja.

Tranquilize-se, leitor: escolha seu candidato com sabedoria. Reflita e se identifique com algum. Ou nem: optar por brancos ou nulos também é votar.

Vá, vote e volte de sua seção eleitoral com segurança e serenidade: mais uma das muitas garantias de vivermos sob o manto abençoado do nosso regime de governo, sem riscos de sermos jogados aos leões em arenas públicas por simples opinião dissonante.

Nossa democracia é, sim, maior e mais poderosa do que muitos julgam: mecanismos internos de controle, mesmo maculados por vaidades e vícios individuais, nos garantem governança e metem cabresto, rédeas e esporas aos que eventualmente se queiram chefes tribais ou despóticos.

Exerça cidadania. Doe-se comunitariamente.

Bons votos.

Sucesso. Sempre.

 

Marcos Boldrin

Urbanista e arquiteto, é coronel da reserva e ex-gestor público estadual e municipal

@marcosboldrin

marcosboldrin@outlook.com

Marcos Boldrin

Marcos Boldrin é coronel da reserva, urbanista e arquiteto de formação, e ex-gestor público estadual e municipal

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