Houve um tempo em que a infância acontecia do lado de fora.
Ela tinha cheiro de terra molhada, joelhos ralados, bicicleta caída na calçada e mães chamando os filhos ao entardecer. Havia tédio — e justamente por isso havia imaginação. A criança aprendia a criar mundos com gravetos, lençóis, caixas de papelão e silêncio.
Os millenials talvez tenham sido a última geração a viver uma infância predominantemente analógica. Brincavam até escurecer. Desenvolviam autonomia espacial caminhando pelas ruas do bairro, aprendiam a negociar conflitos sem supervisão constante e construíam vínculos através da presença física, do olhar e da convivência espontânea.
Hoje, observa-se uma transformação profunda e silenciosa da experiência infantil.
Em The Anxious Generation, Jonathan Haidt descreve a substituição de uma “infância baseada em brincadeiras” por uma “infância baseada em celulares”. Não se trata apenas de nostalgia geracional. Trata-se de uma mudança estrutural na forma como o cérebro, os vínculos e a subjetividade estão sendo construídos.
Crianças cada vez mais estimuladas — e paradoxalmente cada vez menos capazes de sustentar o vazio.
A neurociência já demonstra os impactos do excesso de telas sobre atenção, sono, impulsividade e circuitos dopaminérgicos. Mas talvez exista algo ainda mais profundo acontecendo: a erosão progressiva da capacidade de imaginar.
Porque imaginar exige ausência de estímulo imediato. Exige espera. Exige silêncio.
E nossa época parece travar uma guerra contra qualquer forma de silêncio.
Enquanto isso, o brincar livre vai desaparecendo. E isso não é um detalhe banal do desenvolvimento infantil. Para Donald Winnicott, é justamente no brincar que a criança desenvolve simbolização, criatividade e constituição do self. É brincando que ela aprende a experimentar o mundo, elaborar angústias e descobrir quem é.
Talvez estejamos criando crianças altamente entretidas e emocionalmente empobrecidas.
Crianças que sabem deslizar telas antes mesmo de aprender a sustentar frustrações. Que recebem estímulos incessantes, mas poucas oportunidades de contemplação. Que acumulam informação, mas vivem cada vez mais privadas de experiência.
O excesso de proteção também participa desse fenômeno. Nunca monitoramos tanto nossas crianças — e talvez nunca elas tenham estado tão ansiosas. Há pais aterrorizados pelo mundo físico e completamente permissivos diante do mundo digital.
Trocaram-se as ruas pelos algoritmos.
E os algoritmos jamais tiveram compromisso com o desenvolvimento emocional de uma criança.
Manoel de Barros escreveu certa vez:
“O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.”
Talvez seja justamente essa capacidade de “transver” que esteja adoecendo.
Porque a infância necessita de vento, de tempo lento, de brincadeiras improdutivas, de árvores, de quedas, de silêncio e até de um certo abandono saudável. A infância necessita do mundo real para aprender a existir dentro dele.
Talvez a geração mais conectada da história esteja crescendo sem intimidade com o vento, com a terra, com o outro — e até consigo mesma.
E talvez, no futuro, descubramos que o maior prejuízo das telas nunca foi apenas atencional.
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