Colunas

A essência naïf de ‘Canavial, os vivos e os mortos’

Continuo muito emocionado e me perguntando se é verdade ou sonho que o original de meu romance épico “Canavial, os vivos e os mortos” venceu em primeiro lugar o Edital n.º 2/2021, de fomento municipal, aberto pela Secretaria Municipal da Cultura de Marília obteve a nota 234,5 e conquistou o primeiro lugar no prêmio de R$ 25 mil.

Os recursos serão utilizados exclusivamente para custear uma produção editorial que tem na sua essência a arte naïf, trazendo a saga de uma família de cortadores de cana, chamados na maioria das vezes de boias-frias.

Depois que as colhedeiras mecânicas entraram em cena, os trabalhadores de facão e podão praticamente foram extintos. Restaram pouquíssimos para determinadas frentes, principalmente para cortes em terrenos mais íngremes, onde a mecanização não tem a menor chance de chegar perto.

Agradeço imensamente os esforços da produtora cultural Caká de Cerqueira César, da “La Musetta”, que terá a missão de editar “Canavial, os vivos e os mortos”. Conheço a Caká há mais de 20 anos, iniciando a minha amizade com ela a partir do seu pai, o inesquecível Dô de Cerqueira César. Quando morei na rua Presidente Vargas – e já escrevi sobre esta rua, pois nela também viveu um revolucionário de 1932 – encontrava-me com o Dô no Bar do Luizão, que ficava na esquina de casa. Sempre gostei muito de conversar com ele, uma verdadeira enciclopédia viva e alguém que amava a vida em todos os seus detalhes. Nem poderia imaginar que, anos depois, a filha do meu amigo estaria cooperando intensivamente para transformar um original que me persegue há mais de 15 anos em realidade editorial.

A arte primitivista, como a arte naïf é também conhecida (ou seja, todo mundo tem dois nomes: cortadores de cana/boias-frias, arte primitivista/arte naïf, cinema/sétima arte, etc…) estará perfeitamente representada na edição de ‘Canavial’, pois capa e ilustrações serão de responsabilidade de um artista que é sumidade neste estilo das artes plástica: Aloísio Dias da Silva. Seu Aloísio tem sensibilidade artística que impressiona tanto nas telas, quanto fora delas. Quando compartilhei com ele o desejo de contar com a sua interpretação artística para as cenas de ‘Canavial’, que se passa na Paraguaçu Paulista, minha cidade natal, nos anos de 1980, prontamente aceitou e me pediu detalhes da trama.

Convivo com os personagens de “Canavial” há bem mais tempo do que os 15 anos em que a trama me surgiu. Praticamente, convivo com eles desde que me conheci por gente e observei na rua de terra nas proximidades da minha casa, lá em Paraguaçu, um ônibus onde estava escrito a palavra ‘Rurais’ estacionando na esquina. Vi homens e mulheres descendo no bairro – muitos, pais e mães de meus amigos do campinho de futebol – carregando seus podões, suas garrafas d’águas, repletos de fuligem e cansaço.

Assim, diariamente, eles edificaram uma economia, geraram riquezas, sendo a base da produção de açúcar e do álcool. Sofreram tendinites, dores musculares e muitos chegaram aos 40 anos com esforços repetitivos que desgraçaram seus nervos ciáticos e colunas vertebrais. Criaram seus filhos, netos e ficaram perdidos quando souberam da mecanização. Ficcionei esta realidade a partir da trajetória de uma família, cuja mãe morre e o pai tem a incumbência de criar solitariamente os filhos. Um deles, João Cândido, ou Semterra, nos transmitirá uma mensagem.

Ramon Franco

Ramon Barbosa Franco é escritor e jornalista, autor de diversos livros, entre eles ‘A próxima Colombina’

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