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A esperança no Jardim dos Justos

 Avenida dos Justos, no Museu do Holocausto, em Jerusalém (Foto: Ramon Barbosa Franco)

Anos atrás quando ministrei duas palestras sobre literatura e sobre a importância do hábito de ler para os menores que cumpriam sentenças na Fundação Casa de Marília, precisei contextualizar a II Guerra Mundial.

Na verdade, tive que fazer uma síntese aos adolescentes que, de havaianas, cabelos raspados e uniformes, aprenderam sobre Adolf Hitler, a perseguição aos judeus e o holocausto. Citei, inclusive, que sugerissem como opção de filme na programação cultural da instituição o longa ‘A lista de Schindler’, de Steven Spielberg, de 1993.

‘A lista de Schindler’ conta o sofrimento dos judeus perseguidos pelo Terceiro Reich na indústria de extermínio e horror constituída pelos insanos nazistas. Narra os esforços de Oskar Schindler (1908-1974), um industrial filiado ao Partido Nazista, para salvar os judeus da morte.

Quando estive pela terceira vez na avenida que cruza a frente da igreja das Nações, no Monte das Oliveiras, em Jerusalém, me mostraram o cemitério onde Schindler está sepultado. Trata-se de um cemitério cristão construído na base da Porta Dourada, a única porta fechada da Velha Jerusalém. Foi pela Dourada que o Cristo entrou triunfal na Capital Mundial da Fé no Domingo de Ramos. E, conforme constam as profecias cristãs, será por ela que o Verbo retornará para Jerusalém.

Dias depois desta visita, me vejo em plena avenida dos Justos, no Yad Vashem, o Museu do Holocausto. O holocausto foi a tentativa de exterminar todos os judeus da face da Terra, vitimando mais de seis milhões de inocentes. Uma mácula profunda na história da humanidade, tão terrível quanto o extermínio dos povos indígenas das três Américas.

A avenida dos Justos é uma via interna, localizada no Yad Vashem, e nas suas margens estão árvores plantadas por homens e mulheres que, mesmo diante das atrocidades cometidas pelas suas nações, se levantaram contra o ódio e a violência, colocaram suas vidas em risco e defenderam a vida e a paz.

Dois brasileiros realmente fizeram isso no período da II Guerra Mundial: Aracy de Carvalho Guimarães Rosa (esposa do cônsul e escritor brasileiro Guimarães Rosa), servidora do Itamaraty em Hamburgo, Alemanha, e Luiz Martins de Souza Dantas, diplomata brasileiro em Paris, na capital da França. Ambos deram guarida para que famílias judias pudessem entrar legalmente no Brasil, ficando a salvo das câmaras de gás, do horror e dos campos de concentração.

A visita ao Museu do Holocausto consistiu, para mim, num dos principais momentos da imersão que participei recentemente, promovida pela Hadassa Viagens. Ver os sapatos que as vítimas utilizavam no exato momento em que foram executadas me emocionou profundamente. Marquei o nome de uma vítima: Liba Zalkind. Aracy de Carvalho, que salvou os judeus de Hamburgo, morreu com mais de 100 anos. Em 2 de junho de 1982, a brasileira plantou sua árvore no Yad Vashem.

Talvez Liba Zalkind poderia ter vivido 100 anos também, se não fossem a intolerância e a violência extrema. Radicalismo, em qualquer época da humanidade, nunca rende bons frutos. Pensemos nisso hoje.

Ramon Franco

Ramon Barbosa Franco é escritor e jornalista, autor de diversos livros, entre eles ‘A próxima Colombina’

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