Marília e região

Terremotos na Venezuela preocupam imigrantes em Marília

Bombeiros e equipes de resgate buscam vítimas em um prédio destruído em Los Palos Grandes (Edilzon Gamez/Getty Images)

Os recentes terremotos que atingiram a Venezuela não abalaram apenas as estruturas físicas do país, mas também o estado emocional de quem vive a milhares de quilômetros de distância. Em Marília, a comunidade de imigrantes venezuelanos enfrenta o desespero e a impotência de acompanhar a tragédia à distância.

Quase 72 horas após os dois terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, o número de vítimas continua aumentando. O balanço mais recente aponta cerca de mil mortos e mais de 3 mil feridos, enquanto equipes de resgate de diversos países seguem as buscas por sobreviventes sob os escombros. As autoridades venezuelanas afirmam que milhares de pessoas continuam desaparecidas e que a prioridade permanece no salvamento de vítimas presas em áreas devastadas.

Esse drama é refletido na história de Yemis Edegar Silva, de 61 anos. Ao tomar conhecimento dos abalos sísmicos consecutivos, de magnitudes 7,2 e 7,5, que derrubaram ou danificaram cerca de 383 edifícios na Venezuela, ele passou dias sem conseguir notícias da família.

Yemis Edegar Silva conseguiu contato com familiares na Venezuela, que estão bem (Foto: Arquivo Pessoal)

“Quando eu vi aquela reportagem, eu não consegui segurar as lágrimas. Chorei no ônibus. De tristeza e sofrimento pelo povo que está passando tudo isso lá na Venezuela. Fiquei dois dias sem poder dormir, preocupado. Fui trabalhar, mas o patrão e os engenheiros mandaram eu vir embora ontem”, relatou Yemis, ao descrever o impacto emocional causado pela falta de informações.

Após o período de maior ansiedade, o venezuelano conseguiu contato com o filho e os irmãos e confirmou que todos estão bem. Uma prima que mora em Caracas, uma das áreas próximas aos abalos mais intensos, teve a residência danificada, mas escapou com vida.

Mesmo com o alívio em relação aos familiares, a dor pela tragédia que atingiu o país permanece. “Acredito que todos os meus conterrâneos estão nesse mesmo desespero. Talvez tenha gente que perdeu familiares e ainda nem saiba. Estamos angustiados por não saber. É duro”, lamentou.

A destruição provocada pelo maior terremoto registrado no país em mais de um século reabriu feridas profundas na trajetória de Yemis. Morador de Marília desde dezembro de 2025, ele já havia deixado o país em razão da grave crise política, econômica e humanitária.

Antes de chegar ao Brasil, perdeu a esposa e a irmã em decorrência da falta de estrutura na saúde, da impossibilidade de acesso a tratamentos como diálise e quimioterapia e da escassez de medicamentos. A sequência de perdas o levou à depressão, até decidir deixar a Venezuela.

No Brasil, encontrou a oportunidade de recomeçar. Trabalhou nas obras do metrô de São Paulo e, posteriormente, mudou-se para Marília, onde se casou com uma técnica de enfermagem do Hospital das Clínicas (HC).

Ao descrever a situação da Venezuela após os terremotos como de um país “colapsado”, Yemis também destacou o espírito de solidariedade que, segundo ele, marca o povo venezuelano. “Afetou muitos pais de família, que perderam tudo. Não é fácil. Mas tem uma coisa: o venezuelano, na hora da dificuldade, é muito unido”, concluiu.

Enquanto a Venezuela recebe ajuda internacional e mantém as operações de resgate, venezuelanos que vivem em Marília seguem acompanhando, à distância, a busca por sobreviventes e aguardando notícias de familiares e amigos que permanecem nas áreas atingidas.

Alcyr Netto

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