Marília e região

Santa Casa alerta para colapso da neurocirurgia e diz não ter dinheiro para pagar equipe

Santa Casa de Marília corre o risco de interromper o serviço de neurocirurgia (Foto: Alcyr Netto/Marília Notícia)

A possibilidade de interrupção do serviço de neurocirurgia do SUS na Santa Casa de Marília expõe uma das mais graves crises já enfrentadas pela saúde pública regional nos últimos anos. O hospital informou que o déficit mensal de R$ 250 mil impede a continuidade do serviço e coloca em risco todo o funcionamento da instituição, afetando também outros setores.

Desde setembro de 2024, a Santa Casa passou a concentrar praticamente toda a demanda neurocirúrgica de alta complexidade do Departamento Regional de Saúde de Marília (DRS-9), absorvendo tanto procedimentos eletivos quanto urgências neurológicas.

Segundo a administração hospitalar, o serviço se tornou financeiramente insustentável diante do elevado custo operacional, da defasagem da tabela SUS e da ausência de recomposição financeira adequada por parte do poder público. A situação é considerada crítica pela direção do hospital.

Márcio Mielo revelou que ainda não conta com recursos para pagar salários do próximo mês (Foto: Alcyr Netto/Marília Notícia)

Segundo o superintendente da Santa Casa, Márcio Mielo, a instituição já não possui garantia sequer para o pagamento da equipe no próximo mês. Caso nenhuma medida emergencial seja adotada, existe o risco concreto de paralisação parcial ou total do serviço, cenário que pode provocar um colapso no atendimento regional de urgência neurológica.

Hoje, a neurocirurgia da Santa Casa atende pacientes de 62 municípios, abrangendo uma população superior a 1,3 milhão de habitantes. São casos extremamente graves e tempo-dependentes, como traumatismos cranianos, AVCs hemorrágicos, aneurismas rompidos, hemorragias cerebrais, tumores cerebrais e outras urgências neurológicas de alta complexidade.

O maior temor é justamente o que aconteceria caso o serviço deixe de funcionar. Sem a neurocirurgia em Marília, pacientes graves teriam de entrar no sistema Cross para tentativa de transferência a outras regionais do Estado, principalmente para Bauru, no DRS-6, a 106 quilômetros de Marília, ou Presidente Prudente, no DRS-11, distante cerca de 175 quilômetros.

Entretanto, segundo a própria direção hospitalar, muitos pacientes simplesmente não suportariam a transferência devido à gravidade clínica.

“Quando a gente fala de neurocirurgia, estamos falando de trauma de crânio, aneurisma rompido, AVC hemorrágico. Não tem como mandar esse paciente para outro lugar. Eu tenho que fazer aqui”, afirmou Márcio Mielo.

Santa Casa tem déficit mensal de R$ 250 mil com a neurocirurgia (Foto: Alcyr Netto/Marília Notícia)

A crise teve início após o encerramento dos atendimentos neurocirúrgicos realizados anteriormente pelo Hospital das Clínicas (HC) de Marília. Na ocasião, segundo a Santa Casa, o próprio Governo do Estado procurou a instituição pedindo que assumisse integralmente o serviço para evitar desassistência regional.

Quando assumiu a neurocirurgia regional, havia uma fila superior a 350 pacientes aguardando cirurgias eletivas, principalmente de tumores cerebrais. De acordo com a administração hospitalar, cerca de 150 cirurgias já foram realizadas desde então.

Para suportar a demanda crescente, a instituição implantou uma nova UTI com 10 leitos especializados, investimento superior a R$ 1,2 milhão em estrutura física, equipamentos e adequações operacionais.

Além da estrutura, foi necessária a contratação de uma equipe altamente especializada composta por 16 médicos, 25 técnicos, cinco enfermeiros, fisioterapeutas e profissionais de apoio.

“O custo é muito alto. Só para montar essa estrutura são equipes extremamente especializadas. Neurocirurgia é uma das áreas mais caras da medicina”, explicou o superintendente.

Márcio Mielo afirmou que neurocirurgia deve parar se não houver auxílio para manter equipes (Foto: Alcyr Netto/Marília Notícia)

Segundo ele, o problema central é que os valores pagos pelo SUS continuam muito abaixo dos custos reais dos procedimentos. Em muitos casos, apenas o aluguel de equipamentos específicos utilizados em uma única cirurgia ultrapassa o valor integral recebido pelo hospital.

Márcio Mielo citou como exemplo procedimentos cujo aluguel de equipamento chega a R$ 20 mil.

“Hoje mesmo nós autorizamos um procedimento em que só o aluguel do equipamento custa R$ 20 mil. Uma cirurgia de tumor cerebral, mesmo com a tabela SUS Paulista, paga cerca de R$ 8 mil. Não fecha a conta”, afirmou.

PACIENTES

A situação se agrava porque os pacientes neurocirúrgicos costumam permanecer internados por longos períodos. Muitos ficam entre 10 e 30 dias ocupando leitos de UTI e enfermaria, reduzindo a capacidade operacional do hospital em outras especialidades.

Segundo a Santa Casa, isso já começa a afetar setores como ortopedia e pode atingir, em curto prazo, cirurgias cardíacas e oncológicas.

“Um problema acaba puxando outro. O paciente fica muitos dias internado e isso trava outros leitos. A gente deixa de fazer outras cirurgias e deixa também de receber recursos dessas outras áreas”, relatou.

O déficit mensal da neurocirurgia gira atualmente em torno de R$ 250 mil. Em cerca de 20 meses de operação integral do serviço, o prejuízo acumulado já alcança aproximadamente R$ 4,75 milhões, segundo a instituição.

Somente com materiais cirúrgicos de alto custo, como órteses e próteses utilizadas nos procedimentos neurocirúrgicos, a Santa Casa afirma ter gasto aproximadamente R$ 15,5 milhões entre outubro de 2024 e abril deste ano.

Além disso, a instituição alerta para novos desafios financeiros já no horizonte. Um dos exemplos citados é a necessidade futura de substituição do aparelho de ressonância magnética do hospital, cujo prazo operacional se aproxima do limite de manutenção. O equipamento custa cerca de R$ 6 milhões.

Marido de Terezinha foi internado na Santa Casa após cair de terraço (Foto: Alcyr Netto/Marília Notícia)

Márcio Mielo afirma que a situação foi oficialmente comunicada à Secretaria Municipal de Saúde, à Prefeitura de Marília, ao DRS-9 e também à Secretaria Estadual de Saúde.

Segundo ele, reuniões já ocorreram diversas vezes com representantes estaduais, incluindo o secretário estadual da Saúde, Eleuses Paiva.

“A Secretaria conhece a realidade. Eles são sensíveis ao problema, mas até agora não houve solução concreta. E a gente está chegando no limite”, afirmou.

A Santa Casa afirma que não deseja interromper os atendimentos, mas defende mudanças urgentes no modelo de financiamento e também uma divisão regional da demanda com outros hospitais que tenham capacidade técnica para absorver parte dos casos.

“A gente não quer parar. A gente quer dividir. Queremos financiamento adequado para continuar atendendo”, destacou o superintendente.

Enquanto a discussão ocorre nos bastidores administrativos e políticos, familiares de pacientes demonstram preocupação diante da possibilidade de fechamento do serviço.

A aposentada Terezinha Maria da Costa Souza, moradora de Lucélia, acompanhava o marido de 75 anos, internado após cair de um terraço e sofrer traumatismo craniano. O paciente precisou ser transferido às pressas durante a madrugada para Marília após o acidente.

“Vai ser muito ruim se fechar. Porque aí a gente vai para onde? É um lugar ideal. Os políticos precisam fazer alguma coisa”, afirmou.

Hoje, segundo a direção hospitalar, o cenário já é considerado emergencial. A instituição afirma que vem mantendo o funcionamento graças à credibilidade junto a fornecedores e equipes médicas, mas alerta que a situação se aproxima do limite operacional.

“O fornecedor vai começar a parar de fornecer. Eu não vou conseguir pagar equipe. E aí não é só a neurocirurgia que entra em risco. Isso começa a afetar todo o hospital”, alertou Márcio Mielo.

Segundo o superintendente, sem uma solução financeira imediata, a continuidade do serviço no próximo mês já é incerta.

“Infelizmente, se as coisas não mudarem, teremos que parar com as neurocirurgias aqui na Santa Casa de Marília”, finalizou.

Segundo apuração do Marília Notícia, a Secretaria Municipal da Saúde afirma que o tema já vem sendo discutido com o DRS e Governo do Estado. A informação é de que a Santa Casa não deve interromper os atendimentos enquanto uma solução é buscada pelas autoridades estaduais e regionais.

Ainda conforme apurado pelo MN, uma das alternativas discutidas nos bastidores é a retomada do serviço de neurocirurgia pelo Hospital das Clínicas de Marília, modelo que já vinha sendo debatido anteriormente entre representantes da área da saúde.

Outro lado

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo informou que a Santa Casa de Marília é uma das instituições beneficiadas pela Tabela SUS Paulista, iniciativa do Governo de SP criada para ampliar o financiamento dos hospitais filantrópicos que atendem pelo SUS.

Desde 2024, a Santa Casa de Marília recebeu R$ 70,4 milhões a mais de recursos dos cofres estaduais, pelos atendimentos realizados no âmbito da Tabela SUS Paulista. O programa do Governo de SP paga até cinco vezes mais do que os valores repassados pela tabela federal, com o objetivo de corrigir a defasagem histórica da remuneração, ampliar a capacidade assistencial e dar maior sustentabilidade financeira às Santas Casas e entidades filantrópicas.

“A Pasta mantém diálogo permanente com a direção da Santa Casa e com a Prefeitura de Marília, e continuará dialogando para garantir a continuidade dos serviços de neurocirurgia prestados pela instituição. A SES reforça que eventuais ajustes na organização da assistência devem ser tratados de forma técnica e pactuada, com foco na preservação do atendimento à população”, afirma a nota.

Alcyr Netto

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