Marília está diante da possibilidade de voltar a conviver com a circulação de trens de carga após mais de 17 anos. Uma eventual retomada das operações ferroviárias poderá mudar a dinâmica da mobilidade urbana do município e trazer novos desafios relacionados às passagens de nível, ao trânsito e ao deslocamento de veículos de emergência.
A questão foi levantada pelo vereador Chico do Açougue (Avante), que questionou a Prefeitura sobre as providências previstas diante da possibilidade de aumento da circulação de trens pela cidade. Entre os pontos apresentados estão os eventuais bloqueios nas passagens de nível e os impactos que eles poderiam provocar no deslocamento de ambulâncias, viaturas do Corpo de Bombeiros, equipes do Samu e outros veículos de emergência.
Em resposta, a Secretaria Municipal de Planejamento Urbano (SPU) informou que, até o momento, não existe estudo técnico específico e conclusivo sobre os efeitos de uma eventual retomada do tráfego ferroviário nas passagens de nível existentes em Marília. Segundo a administração municipal, eventuais medidas de segurança e ordenamento do trânsito serão avaliadas em conjunto com os órgãos competentes caso a retomada das operações exija intervenções específicas.
A Prefeitura também informou que a continuidade dos serviços públicos essenciais é uma diretriz da administração. Eventuais medidas relacionadas à circulação de veículos de emergência durante possíveis bloqueios da linha férrea deverão ser analisadas caso alterações na operação ferroviária provoquem impactos na mobilidade urbana.
O mesmo princípio vale para possíveis intervenções de infraestrutura. Neste momento, não há previsão específica de construção de viadutos, trincheiras ou outras obras destinadas a reduzir eventuais impactos da retomada do tráfego ferroviário. A necessidade de medidas dessa natureza poderá ser avaliada conforme o cenário de operação da ferrovia e seus efeitos sobre a circulação urbana.
Reforma contratual
A possibilidade de retomada da circulação de trens pela região está relacionada às obras de reforma da malha ferroviária conduzidas pela concessionária Rumo Logística. Os investimentos estão previstos no Caderno de Obrigações do 2º Termo Aditivo de renovação antecipada do contrato de concessão da Malha Paulista, cuja vigência foi estendida até 2058. O prazo previsto para a conclusão dos serviços é 2028.
A reativação do trecho entre Bauru e Panorama, no entanto, ainda não significa que Marília tenha uma data definida para a retomada do tráfego ferroviário. Segundo as informações disponíveis, o trecho da ferrovia que atravessa o município ainda não passou por reforma estrutural.
O cenário, portanto, ainda depende do avanço das obras e da definição das condições para a retomada das operações. Caso a circulação ferroviária seja efetivamente restabelecida, a cidade terá de conciliar novamente o tráfego de trens com a dinâmica urbana construída ao longo de mais de uma década sem a presença regular de cargueiros.
Os últimos trens de carga passaram por Marília em janeiro de 2009. O transporte ferroviário de passageiros, por sua vez, deixou de operar em março de 2001.
Uma cidade que mudou
Ao longo desse período, a relação de Marília com a ferrovia também mudou fisicamente. Um dos principais exemplos é o antigo viaduto construído na década de 1970 para transpor a linha férrea e conectar a região central da cidade. A estrutura foi implodida em 29 de setembro de 2002, em meio a problemas estruturais e ao declínio do transporte ferroviário, para dar lugar a um projeto de revitalização urbana.
Outra solução adotada ao longo dos anos foi a implantação de passagens em nível inferior, como a passagem da rua Bahia. Essas estruturas passaram a integrar a rede de circulação do município e representam parte das alternativas criadas para conectar diferentes regiões da cidade.
A eventual retomada dos trens, portanto, poderá exigir uma nova avaliação da relação entre a infraestrutura ferroviária existente e o sistema viário. Entre os pontos a serem considerados estão os locais onde a linha férrea cruza ruas e avenidas no mesmo nível, além da circulação de veículos em situações de eventual bloqueio.
Novos desafios
Além da mobilidade, a faixa ferroviária também convive com pontos de ocupação que têm resultado em processos judiciais de reintegração de posse. Recentemente, por decisão judicial, foi retirado o camelódromo que ocupava a área do antigo pátio da estação ferroviária desativada.
Na resposta ao vereador, a Prefeitura ressalta que a implantação, a operação e eventuais alterações na infraestrutura ferroviária envolvem competências de outros órgãos e entidades. O município afirma que cabe à administração acompanhar o tema e adotar, quando necessário e dentro de sua esfera de atuação, as providências para preservar a segurança viária e a mobilidade urbana.
A eventual retomada do tráfego ferroviário representa, assim, uma mudança no cenário urbano de Marília, que há mais de 17 anos não convive com a circulação regular de trens de carga. Nesse contexto, questões como o funcionamento das passagens de nível, a fluidez do trânsito e o deslocamento de veículos de emergência estão entre os aspectos que poderão ser avaliados ao longo do processo.
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