Nos últimos anos, o avanço da reciclagem no Brasil tem evidenciado tanto o potencial econômico do setor quanto os desafios que ainda limitam seu desenvolvimento. Entre entraves tributários, informalidade e questões de segurança pública, a cadeia da sucata vive um momento de transição — que exige organização, diálogo e novas estratégias para se manter competitiva.
Marília sediou, nesta quinta-feira (19), o 1º Workshop Recicla Legal organizado pela Metalfec, no Hotel Sun Valley. O evento, que inicialmente previa 120 participantes, superou as expectativas e reuniu mais de 180 inscritos de diversas regiões do Brasil, incluindo Pará, Rio Grande do Sul e Maranhão.
O encontro reuniu desde catadores até representantes da indústria e do poder público para discutir os desafios do mercado de reciclagem, com foco no combate à informalidade, na profissionalização da gestão e nas recentes mudanças tributárias.
Um dos temas que mais geraram preocupação e debate foi a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou inconstitucional a isenção de PIS e Cofins para o setor de sucata. Segundo Fábio Donófrio, CEO da Metalfec e idealizador do workshop, o segmento foi surpreendido pela mudança, que passou a impor uma alíquota de 9,25% sobre as vendas.
Donófrio classificou a medida como “bitributação”, já que os produtos originais teriam sido tributados antes de se tornarem sucata. Ele alertou que a nova carga desestimula a reciclagem e penaliza a parte mais vulnerável da cadeia produtiva — o catador — que tende a receber menos pelo material.
“Quando a gente fala de impostos, o Brasil é uma vergonha nessa parte. Ao mesmo tempo, ele é um exemplo. O país é líder na reciclagem de alumínio, reciclando 98% de todo o alumínio. Falo para vocês que é por conta do valor agregado do alumínio, por ser um metal mais nobre, de maior valor agregado, mas também pela questão social. Muitas pessoas sobrevivem através da reciclagem”, disse Donófrio.
A proposta do evento surgiu da necessidade de enfrentar o aumento de furtos de cobre e fios na região. Carlos Eduardo Camargo, representante da CPFL Paulista, apresentou dados sobre o problema. Nos últimos dois anos, foram registrados 76 furtos de equipamentos, com prejuízo estimado em R$ 8 milhões. Segundo ele, os impactos vão além das perdas financeiras, afetando hospitais, escolas, presídios e a segurança pública.
“Às vezes falta energia na nossa casa e a gente não faz nem a menor ideia do que tem por trás. Existe um sistema todo automatizado, para que a subestação tenha que se proteger e desligar caso encontre algum tipo de problema. Um dos problemas que já foram registrados foi o furto desses cabos aqui que vocês estão vendo”, afirmou Camargo.
A delegada titular da Polícia Civil de Vera Cruz, Márcia Bicalho Borini, detalhou mudanças legislativas que endureceram as penas para esses crimes.
O furto de fios e cabos passou a ser qualificado, com pena de dois a oito anos de prisão. Já a receptação — compra de material furtado — também teve punição ampliada.
Para auxiliar as investigações, a delegada defendeu o fim da compra de “cobre queimado”, que impede a rastreabilidade, e a preservação dos fios intactos, que possuem identificação por lote.
Gestão, ética e profissionalização
Outro eixo do workshop foi a necessidade de melhorar a imagem dos chamados “ferros-velhos” por meio de uma gestão mais eficiente. O especialista e mentor de negócios Paulo Fiuza afirmou que a reciclagem deixou de ser o “mercado do futuro” para se consolidar como o “mercado do presente”. Ainda assim, destacou falhas recorrentes, como a falta de capital de giro e de organização contábil e de liderança.
Carlos Roberto de Morais, executivo e consultor, elogiou a postura da Metalfec ao adotar práticas pautadas pela ética em um setor historicamente desafiador. Segundo ele, a adoção de boas práticas contribui para proteger empresas que atuam de forma legal.
Exportação e apoio governamental
A exportação também foi apontada como alternativa para fortalecer financeiramente o setor. Anderson Pomini, presidente da Autoridade Portuária de Santos, participou de forma on-line e destacou o crescimento da atividade. Em 2025, o Porto de Santos movimentou 200 mil toneladas de alumínio reciclado e 100 mil toneladas de ferro.
“Eu fiz questão de participar, tendo em vista o respeito que eu tenho por esse setor. É um setor que cresce muito e a gente percebe isso claramente aqui no Porto de Santos. A gente tem feito o planejamento da expansão da área portuária, levando em consideração o gráfico crescente para todos os números. Chamam a atenção esses que eu me referi para o alumínio e para o ferro, que já representam uma boa parcela de tudo que se movimenta aqui no Porto de Santos”, disse Pomini.
Diante do impacto da decisão do STF, Fábio Donófrio solicitou que Pomini atue como interlocutor do setor junto ao governo federal. O presidente da autoridade portuária aceitou o compromisso e se colocou à disposição para levar as demandas aos ministérios em Brasília.
O 1º Workshop Recicla Legal foi encerrado com a avaliação de que o mercado de sucatas precisa investir em união, segurança jurídica e sustentabilidade corporativa para manter o crescimento e enfrentar os desafios do setor.
Confira mais fotos do evento inédito:
Fotos: @gr_fotografia_
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