Marília e região

Radiografia do trabalho mostra mercado aquecido, mas ainda instável em Marília

Jean e Sérgio trabalharam no Dia do Trabalho em Marília (Foto: Alcyr Netto/Marília Notícia)

A passagem pelo Dia do Trabalhador convida a um olhar mais atento sobre quem sustenta a economia local – e os dados mais recentes ajudam a desenhar esse retrato. Em março de 2026, Marília manteve saldo positivo na geração de empregos com carteira assinada, segundo o Novo Caged, consolidando uma tendência de recuperação gradual do mercado formal ao longo do início do ano.

Foram 3.412 admissões contra 3.198 desligamentos, resultando em 214 novas vagas formais no mês. À primeira vista, o número confirma um cenário positivo. Mas, em uma leitura mais detida, revela também uma característica estrutural do mercado de trabalho local: a alta rotatividade.

O volume de contratações e demissões permanece elevado e muito próximo, o que indica um mercado dinâmico, porém ainda marcado por instabilidade nas relações de trabalho.

Esse padrão não é pontual. Ele já havia sido observado nos meses anteriores e tende a se repetir em economias com forte presença dos setores de serviços e comércio, que concentram grande parte das vagas formais e, ao mesmo tempo, apresentam maior sensibilidade a oscilações sazonais e de demanda.

Carro-chefe

Em Marília, o setor de serviços segue como principal motor do emprego, sustentando tanto o estoque de trabalhadores quanto a maior parte das movimentações mensais.

Comércio e indústria aparecem na sequência, com comportamentos distintos: o primeiro mais volátil, influenciado por datas e ciclos de consumo; o segundo mais estável, embora com menor capacidade de expansão no curto prazo. A construção civil, por sua vez, alterna períodos de maior protagonismo, especialmente em momentos de retomada de investimentos.

O perfil do trabalhador formal reforça tendências já conhecidas em âmbito nacional, mas que também se manifestam com clareza no contexto local. A maior parte das contratações segue concentrada entre jovens, especialmente na faixa de 18 a 24 anos, o que aponta para o mercado formal como principal porta de entrada para o primeiro emprego.

Ao mesmo tempo, há predominância masculina no saldo de vagas, evidenciando que, apesar de avanços, ainda persistem desigualdades de gênero na absorção de mão de obra. Em termos de escolaridade, o ensino médio completo continua sendo o principal requisito observado nas admissões, refletindo o perfil das atividades predominantes na economia local.

Outro indicador relevante é o salário de admissão. Em março, o valor médio pago aos trabalhadores que ingressaram no mercado formal ficou próximo de R$ 2,3 mil, em linha com a média nacional. O dado, no entanto, carrega diferenças importantes entre setores: remunerações mais elevadas costumam estar associadas à indústria e à construção civil, enquanto comércio e serviços de menor qualificação concentram os menores salários de entrada.

Isso ajuda a explicar, em parte, a percepção de renda limitada entre trabalhadores, mesmo em um cenário de geração líquida de empregos.

Carteira assinada

Atualmente, Marília mantém cerca de 71,7 mil vínculos formais ativos, um contingente expressivo para o porte do município e que corresponde a aproximadamente um terço da população.

O número reforça a relevância do emprego com carteira assinada na estrutura econômica local, mas também evidencia seus limites: uma parcela significativa da população segue fora desse recorte, atuando na informalidade ou em ocupações autônomas – dimensões que não são captadas pelo Caged.

O conjunto dos dados aponta, portanto, para um mercado de trabalho que avança, mas de forma heterogênea. Há crescimento, mas ele não se traduz necessariamente em estabilidade; há geração de vagas, mas concentrada em setores de menor remuneração; há oportunidades para jovens, mas ainda com barreiras para outros grupos. Mais do que um retrato estático, o que se observa é um sistema em movimento – dinâmico, porém ainda desafiador.

Trabalho no feriado

Enquanto a maioria da população de Marília aproveita o feriado de 1º de maio para descansar, uma parcela da força de trabalho mantém a cidade funcionando. Para esses profissionais, o Dia do Trabalho é vivenciado, na prática, em seus postos de serviço.

O Marília Notícia acompanhou a rotina de alguns desses trabalhadores, que encontram no plantão de feriado não apenas um ritmo mais calmo, mas, acima de tudo, o sustento de suas casas.

Sérgio Luís falou sobre a importância do trabalho (Foto: Alcyr Netto/Marília Notícia)

Há quase oito anos no mesmo emprego, Sérgio Luís é um dos profissionais que bateu o ponto neste feriado em um posto de combustíveis na região do Campus Universitário, na zona oeste de Marília. Para ele, o esforço diário tem uma motivação clara, para garantir o bem-estar familiar.

“É sustentar a família, né? Tenho uma filha pequena dentro de casa e a gente tem que estar na luta. No nosso trabalho não tem feriado, chuva ou sol. Estamos sempre aqui. O bom do feriado é que é mais tranquilo para trabalhar”, contou o frentista.

A gratidão por estar empregado é o sentimento que acompanha o colega Jean Passos da Silva. Diante das dificuldades que muitos enfrentam para conseguir uma vaga, ele enxerga o plantão com bons olhos.

Jean Passos da Silva se disse grato por ter emprego com carteira assinada (Foto: Alcyr Netto/Marília Notícia)

“É gratificante também. Aqui estou trabalhando registrado e sabemos que muita gente precisa trabalhar e não consegue. Em comparação aos dias de semana, no feriado, parece que o pessoal sai para viajar e fica mais tranquilo. Além disso, ganha dobrado quem trabalha no feriado e isso ajuda bastante”, revelou Silva.

O porteiro Oseias João Caetano, que acumula uma década de dedicação em um centro universitário, teve o dia do seu retorno após um mês de férias justamente no feriado. Acostumado com a escala de revezamento, ele contou que o feriado é o melhor dia para trabalhar.

Oseias João Caetano voltou das férias justamente no feriado (Foto: Alcyr Netto/Marília Notícia)

“É o melhor dia para trabalhar. Feriado e domingo é muito tranquilo. Eu faço o que eu gosto. Gosto muito de trabalhar aqui, faço isso há muito tempo. O mais importante é estar em atividade”, disse o porteiro.

Seja pela necessidade de pagar as contas, pela gratidão de ter um registro em carteira ou pelo simples gosto de exercer a profissão, esses trabalhadores de Marília mostram que o 1º de maio vai além da comemoração histórica: é um dia de reafirmar a dignidade por meio do suor de cada jornada.

Carolina Rolta

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