O caso ocorrido em Itumbiara (GO) gerou choque nacional.
Diante de tragédias familiares envolvendo violência extrema, surge a tentativa imediata de explicar o ocorrido por uma única emoção.
Ciúme.
Traição.
Desespero.
Explicações simplistas oferecem conforto momentâneo, mas obscurecem o que realmente precisa ser compreendido.
A Terapia Cognitivo-Comportamental demonstra que comportamentos não são produzidos diretamente pelos acontecimentos, mas pelas interpretações construídas a partir deles.
Quando pensamentos tornam-se rígidos, absolutistas ou persecutórios, a percepção da realidade se estreita.
O mundo passa a ser visto por filtros distorcidos.
Entre as distorções cognitivas mais associadas a conflitos intensos estão:
Sob ativação emocional elevada, tais distorções podem reduzir drasticamente a capacidade de julgamento ponderado.
Isso não equivale a ausência de responsabilidade.
Significa que processos mentais mal regulados podem amplificar reações destrutivas.
Existe uma diferença essencial entre sofrimento e autorização para violência.
A Psicologia Baseada em Evidências é clara: emoções intensas não anulam agência moral.
Mesmo diante de frustração profunda, ainda existem alternativas comportamentais.
Quando crenças sobre posse, honra ou controle se tornam centrais na organização psíquica, qualquer ameaça percebida ao vínculo pode ser interpretada como colapso existencial.
Nesse estado, a rigidez cognitiva substitui flexibilidade.
A impulsividade ocupa o lugar da reflexão.
Casos dessa natureza exigem cuidado ao serem discutidos publicamente.
Narrativas que associam violência a”ato motivado por amor” distorcem completamente a compreensão psicológica.
Amor não legitima agressão.
Dor não suspende ética.
Humilhação não elimina responsabilidade.
Transformar tragédia em justificativa emocional é um erro conceitual grave.
Mais produtivo do que buscar rótulos imediatos é refletir sobre prevenção.
Alfabetização emocional envolve:
Essas habilidades reduzem risco de escalada comportamental em situações de crise.
A violência raramente surge de forma abrupta.
Costuma ser precedida por crenças rígidas não examinadas, interpretações distorcidas e incapacidade de regular ativação emocional.
O debate público precisa ultrapassar indignação momentânea.
É necessário discutir responsabilidade psicológica, educação emocional e acesso a intervenção adequada.
Sem esse avanço, repete-se apenas o ciclo de choque, julgamento e esquecimento.
A Psicologia não existe para explicar o inexplicável, nem para suavizar atos graves.
Existe para compreender mecanismos mentais e ampliar consciência preventiva.
Quando pensamentos deixam de ser questionados, tornam-se verdades absolutas.
Quando crenças absolutas dominam percepção, o risco aumenta.
É nesse ponto que intervenção precoce faz diferença.
Refletir sobre esse caso não significa explorar sofrimento alheio.
Significa reconhecer que processos internos desorganizados podem evoluir para consequências devastadoras quando não recebem cuidado adequado.
Responsabilidade emocional não é discurso abstrato.
É prática cotidiana de autorregulação, revisão cognitiva e busca por ajuda especializada diante de sinais de desorganização psíquica.
Casos extremos mobilizam atenção coletiva.
O que define maturidade social é a qualidade da reflexão produzida a partir deles.
Sem aprofundamento, resta apenas indignação.
Com compreensão técnica, abre-se espaço para prevenção.
***
Vanessa Lheti é psicóloga clínica (CRP 06/160363) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Prática Baseada em Evidências.
Os atendimentos psicológicos online podem ser agendados pelo WhatsApp (18) 99717-7571.
Mais informações podem ser obtidas no Instagram @psicovanessalheti ou pelo site.
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