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Quando mulheres deixam de ser vistas como pessoas

Fernanda Simines Nascimento é médica psiquiatra (Foto: Divulgação)

Nós últimos tempos, acontecimentos diferentes provocaram um mesmo tipo de inquietação. A violência contra as mulheres têm se mostrado motivo de preocupação para a sociedade em geral.

No Rio de Janeiro, o país acompanhou com horror o caso de uma menina brutalmente abusada. Uma criança. Pequena demais para compreender a violência que sofreu, mas que já teve seu corpo tratado como algo disponível para a crueldade de adultos.

Ao mesmo tempo, muitos espectadores discutem a série Adolescência, que mostra a história de um jovem que mata uma colega. A narrativa não gira apenas em torno do crime, mas da incapacidade daquele rapaz de lidar com frustração, rejeição e com a existência de uma menina que não corresponde às suas expectativas.

São histórias diferentes, mas que tocam em um ponto comum: a forma como meninas e mulheres ainda são desumanizadas.

Em muitos episódios de violência, o agressor não enxerga a vítima como alguém com vida própria, desejos, limites e dignidade. Ela deixa de ser pessoa e passa a ser objeto — de controle, de desejo, de raiva ou de vingança.

Esse processo tem consequências devastadoras.

Na psiquiatria, sabemos que a violência raramente surge de um único fator. Ela costuma nascer da combinação entre impulsividade, falta de empatia, dificuldade em tolerar frustrações e ambientes sociais que normalizam a desvalorização feminina.

Meninos crescem ouvindo que precisam provar poder, dominar, não demonstrar fragilidade. Quando essa ideia de masculinidade se mistura com imaturidade emocional, alguns passam a interpretar rejeição ou frustração como humilhação intolerável.

E, então, a agressão surge como tentativa de recuperar controle.

É por isso que episódios de violência contra meninas não são apenas crimes isolados. Eles também funcionam como sintomas de algo maior: uma cultura que ainda ensina, direta ou indiretamente, que mulheres existem para atender expectativas masculinas.

Quando não atendem, alguns homens reagem com ódio.

Nada disso diminui a responsabilidade individual de quem comete violência. Crimes precisam ser investigados, julgados e punidos.

Mas se quisermos realmente reduzir esse tipo de tragédia, precisamos começar antes.

Educar meninos para lidar com frustração. Ensinar que rejeição não é humilhação. Mostrar que meninas não são propriedades, conquistas ou troféus.

São pessoas.

Talvez pareça óbvio. Mas, infelizmente, ainda não.

***

Fernanda Simines Nascimento
Médica Psiquiatra

Fernanda Simines Nascimento

Dra. Fernanda Simines Nascimento formou-se pela Faculdade de Medicina de Marília (Famema), onde também concluiu sua residência médica em psiquiatria.

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