Do interior paulista às pistas de gelo mais rápidas do mundo, o mariliense Edson Martins construiu uma trajetória improvável e marcante no esporte brasileiro. Revelado no atletismo escolar, ele encontrou no Bobsled a chance de competir em alto nível internacional.
Ao longo de quase uma década, Edson participou de três Jogos Olímpicos de Inverno e viveu experiências únicas, que vão da primeira viagem de avião aos desafios extremos de um dos esportes mais radicais do programa olímpico.
Na Entrevista da Semana do Marília Notícia, o atleta relembra o início da carreira, fala sobre superação, bastidores das competições, diferenças estruturais entre os países e deixa conselhos para a nova geração que sonha em seguir o mesmo caminho.
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MN – Como você começou e como vislumbrou participar do Bobsled?
Edson Martins – Na verdade, comecei nas aulas de educação física na escola, aqui no Oracina. Eu sempre gostava de jogar basquete e, como era um dos alunos mais altos, minha professora na época, a Doris, que também motivou atletas como Thiago Braz e Augusto Dutra, me incentivou a ir para o atletismo. Fui fazer um teste, gostei e não parei mais. Comecei a me destacar em competições entre cidades, a Prefeitura me federou e fui disputar o Brasileiro.
MN – Que modalidade você fazia e com que idade começou?
Edson Martins – Eu fazia decatlo. Comecei com uns 12 para 13 anos.
MN – Como surgiu a oportunidade de migrar para o Bobsled?
Edson Martins – Em 2013, surgiu uma oportunidade de fazer um teste em São Caetano do Sul para entrar no Bobsled. Meu treinador na época, o Fabiano, me levou junto com a esposa dele. A seletiva já visava a classificação para as Olimpíadas de 2014, na Rússia. De 60 atletas presentes, acabei passando.
MN – Como foi a primeira competição internacional que você participou?
Edson Martins – Foi a primeira vez que saí do país e a primeira vez que andei de avião. O engraçado é que eu sempre via o Jadel Gregório na televisão e torcia por ele. Quando fiz a primeira viagem, acabei dividindo o quarto com ele. Fomos para os Estados Unidos, em Nova York. Para mim, era tudo novo. Foi a primeira vez vendo neve, primeira vez ouvindo outro idioma. Achei aquilo muito maneiro.
MN – Como foi participar de uma competição real, considerando a diferença de treinamento que vocês tinham aqui?
Edson Martins – Como eu vinha do atletismo, tinha a rapidez e a explosão necessárias. Na época, meu treinador canadense mandou uma foto de um aparelho que usavam para treinar a parte física. Eu mostrei para o meu pai, que tinha uns ferros no fundo de casa. Ele construiu o aparelho para mim e comecei a treinar com esse carrinho improvisado. Ele está lá até hoje, é o mesmo que os meninos usaram para a preparação desta última temporada.
MN – Era só você aqui em Marília no começo?
Edson Martins – Só eu e a Sally. Ela foi para a Olimpíada de 2014 também, mas depois a Confederação parou com o time feminino para priorizar o masculino, e ela acabou parando.
MN – Por que você decidiu focar apenas no Bobsled?
Edson Martins – Eu vi que no Bobsled eu poderia chegar longe, enquanto no atletismo eu ficaria estagnado, até por conta da falta de estrutura e equipamentos. No atletismo, a concorrência é gigantesca. No Bobsled vi uma oportunidade de me dar bem.
MN – Você participou de três Olimpíadas. Como foram essas experiências?
Edson Martins – A primeira, em Sochi (2014), na Rússia, foi a mais marcante. Lembro até hoje da emoção de entrar no estádio na cerimônia de abertura e ver a delegação do Brasil no telão; é algo que não apaga da memória. Depois fui para PyeongChang (2018), na Coreia do Sul, e Pequim (2022), na China.
MN – Como foi competir na China durante a pandemia?
Edson Martins – Foi onde conseguimos nosso melhor resultado, mas foi estranho. Era do hotel para a pista e da pista para o hotel, uma verdadeira bolha por causa da Covid-19. Não tinha torcida, parecia que não era uma Olimpíada, mas fomos finalistas olímpicos, ficando em 20º lugar.
MN – O esporte parece ser muito difícil. O que é preciso ter?
Edson Martins – É difícil. Tem muito atleta que é bom fisicamente, mas quando chega na hora do ‘vamos ver’ na pista de gelo, recua. Tem que ter ‘culhão’, porque é adrenalina pura. Você abaixa a cabeça e reza para não virar. O único que sabe o que está acontecendo é o piloto.
MN – Vocês viram a cabeça nas curvas?
Edson Martins – Nós caminhamos na pista antes com o piloto para memorizar as curvas. Durante a descida, se sei que a curva é para a direita, eu acompanho o movimento, igual andar de moto, para facilitar a pilotagem.
MN – Qual é sua posição no trenó?
Edson Martins – Eu me destaquei por conseguir empurrar de qualquer posição (esquerda, direita ou atrás). Mas, nos dois últimos ciclos olímpicos, fui o breakman, o último homem. Eu não gosto de pilotar nem de ficar olhando as curvas; prefiro abaixar a cabeça e rezar.
MN – Já chegou a virar o trenó?
Edson Martins – Já. Nesta última classificação olímpica, na primeira competição, nós viramos. Dei uma pancada forte e cheguei a desmaiar por alguns segundos. Meu joelho ficou para fora e o gelo ‘comeu’ tudo. Quando a médica perguntou se eu estava bem, menti dizendo que sim, senão ela não me deixaria competir. Mas isso é do esporte; às vezes, para achar a linha mais rápida, o piloto precisa testar e acontece de virar.
MN – Existe muita diferença em relação aos países de ponta? É por causa das pistas?
Edson Martins – Sim, destaca bastante. Países como Alemanha, Suíça, Áustria e Inglaterra têm pistas. Quando acaba o inverno, eles desligam a pista de gelo, mas têm a pista de push (empurrada) para treinar largada o ano todo. No Brasil, tentaram fazer uma no Sul, mas a obra está parada há uns quatro anos.
MN – Você acredita que o time atual tem condições de ser finalista de novo?
Edson Martins – Tem condições. No Mundial de março do ano passado, ficamos em 13º lugar competindo com os mesmos times que vão aos Jogos Olímpicos. Agora é fazer uma boa empurrada e o piloto fazer uma boa descida.
MN – Você está na torcida pela nova geração, especialmente pelo Gustavo, que é de Marília?
Edson Martins – Sim. O Gustavo é um talento, um moleque muito bom. Ele foi o piloto mais novo da temporada e já começou dirigindo o ‘4-man’ (trenó para quatro pessoas), o que é raro e geralmente leva anos para acontecer. O conselho que dei a ele foi que ele seja profissional. Na hora de montar o time, escolha pelo desempenho na pista, e não apenas pela amizade.
MN – Quantos anos você tem hoje, Edson?
Edson Martins – Tenho 36. Comecei no Bobsled com 23 para 24 anos, a mesma idade que o Gustavo tem agora.
MN – Quando serão as competições e qual a diferença entre as modalidades?
Edson Martins – O 2-man (dupla) deve ser dias 16 e 17, e o 4-man (quarteto) dias 21 e 22. Todos os times fazem três descidas. Apenas os 20 melhores tempos se classificam para a quarta e última descida, que é a final.
MN – E o equipamento? O trenó do Brasil é bom?
Edson Martins – O trenó que o time tem agora, comprado da Letônia, é competitivo e a lâmina é boa. Na Olimpíada passada, nosso equipamento era inferior aos dos times de ponta, o que nos deixava para trás, mas agora eles têm condições de fazer um bom resultado.
MN – Que mensagem você deixa para os atletas que estão lá e para quem sonha em começar?
Edson Martins – Para quem está lá: façam o melhor, pois muitos queriam estar no lugar deles. Uma boa empurrada pode trazer o melhor resultado para o Brasil. Para quem quer começar: a Confederação costuma divulgar seletivas no site e no Instagram, geralmente entre junho e julho. Se a pessoa estiver dentro dos critérios, é só fazer o teste.
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