Polícia

Pirâmide financeira que chegou a abrir loja em Marília colapsa e deixa vítimas

Negócio supostamente ligado à tecnologia removeu fachada às pressas, segundo vizinhos (Foto: Marília Notícia)

Um suposto investimento ligado à plataforma Onyá Brasil, que prometia ganhos fáceis por meio de tarefas simples – como, por exemplo, ouvir determinado número de músicas por dia em troca de dinheiro -, entrou em colapso no fim de 2025 e pode ter feito dezenas de vítimas em Marília, especialmente durante a virada do ano.

O caso, com fortes indícios de pirâmide financeira, chegou ao conhecimento do Marília Notícia após o relato de uma vítima. O esquema chamou a atenção por ter ido além do ambiente virtual, com a instalação de uma unidade física na avenida João Ramalho, zona sul da cidade.

O Marília Notícia apurou que uma unidade de “representação” da Onyá funcionou por curto período em um condomínio comercial, no fim de dezembro do ano passado. A presença física, somada a uma estética jovem, moderna e otimista, ajudou a transmitir credibilidade ao negócio e intensificou a captação de novos participantes, justamente na fase final e mais arriscada do esquema.

Dinheiro fácil; tarefas irreais

A reportagem conversou com um dos “investidores”, que amargou prejuízo. Ele conta que foi apresentado a uma plataforma que prometia pagar valores diários pela execução de tarefas simples, como ouvir determinada quantidade de músicas por meio de um aplicativo próprio. O prejuízo foi de cerca de R$ 2 mil.

Para ingressar, o participante precisava fazer um aporte inicial, geralmente a partir de R$ 200 – mas o valor podia ser maior (dependendo da disponibilidade financeira da pessoa). Em tese, o ganho seria proporcional ao valor investido. Em sua maioria, os convites eram feitos de forma informal, no sistema “boca a boca”, entre pessoas conhecidas.

Pela plataforma, havia o acompanhamento de um suposto “saldo”, ao qual a maioria dos usuários relatava não conseguir acesso. Ainda assim, a perspectiva de ganho aumentava progressivamente, o que estimulava novas transferências de valores via PIX, para contas de bancos digitais e sistemas de pagamento, para o resgate de valores destes saldos.

Os usuários também acumulavam quantias virtuais ao indicar novas pessoas para o aplicativo, por isso pirâmide. Quanto maior o número de indicações, maiores eram os ganhos prometidos, que poderiam ser sacados, conforme regras estabelecidas pela própria plataforma.

Vendida como “renda extra” e “investimento”, a pirâmide descrevia “remuneração acima do mercado”, supostamente viabilizada por tecnologia e parcerias digitais. Mas na prática, tratava-se de engenharia social — técnica de manipulação psicológica — aplicada ao crime.

“Eu acreditei que fosse uma oportunidade, porque hoje existem várias formas de ganhar dinheiro pela internet. Vi como investimento”, disse. “Também pensei que conseguiria sacar e ter algum retorno, para sair”, completou.

Ele não chegou a registrar boletim de ocorrência por acreditar que foi atraído por uma pessoa que também teria sido enganada. “Se é golpe mesmo, nunca vão pegar os responsáveis. Então não adianta criar problema para quem me chamou. Ele também perdeu”, afirmou.

Loja física, festa e euforia

A comunicação com os participantes ocorria principalmente por grupos de mensagens, nos quais conteúdos frequentes eram usados para empolgar, motivar e convencer novos integrantes a investir valores cada vez maiores.

Há relatos de que o esquema se espalhou dentro de empresas de Marília, onde diversos funcionários teriam sido convencidos a aderir, em um típico movimento de indicação característico de pirâmides financeiras.

O auge da captação ocorreu com a abertura da loja na avenida João Ramalho. A locatária — uma mulher — teria informado que se tratava de um negócio ligado à tecnologia e a plataformas digitais. O MN esteve no local e conversou com comerciantes da região.

Vizinhos preferiram não se identificar, mas relataram à reportagem que chegaram a ser convidados a integrar à rede. Uma lojista das imediações contou que houve até uma inauguração, com festa, presença de convidados, uso de drone, narguilé e um ambiente descrito como “animado, jovem e moderno”.

Para muitos, aquele momento simbolizava a expansão do negócio. Na prática, segundo especialistas em golpes financeiros, era o sinal clássico da fase final de uma pirâmide, quando a ostentação aumenta pouco antes do colapso.

Prejuízos e vítimas em silêncio

Vítimas ouvidas pela reportagem afirmaram ter perdido entre R$ 2 mil e R$ 5 mil. Um dos entrevistados relatou que não desconfiou da simplicidade das tarefas propostas.

Testemunhas disseram que a inauguração da loja teria ocorrido entre os dias 10 e 15 de dezembro. Pouco tempo depois, antes da virada do ano, o espaço foi completamente esvaziado.

Identificação visual, decoração e qualquer referência ao negócio foram retiradas. O imóvel permanece fechado. A reportagem tentou contato com a proprietária do prédio, mas não obteve retorno.

Plataforma fora do ar e denúncias na internet

O MN tentou acessar o aplicativo e o site da Onyá Brasil, mas a plataforma não está mais no ar. Na internet, especialmente no site Reclame Aqui, há diversas queixas envolvendo o nome.

Em uma delas, um reclamante relata ter investido valores ao longo de dezembro de 2025, somando R$ 2.920, com depósitos feitos em nome de diferentes empresas. Segundo o relato, a plataforma saiu do ar no dia 31 de dezembro, sem aviso prévio, bloqueando saques e mantendo os valores retidos.

Ainda de acordo com a denúncia, mesmo após a plataforma já estar fora do ar, usuários teriam recebido novos links e orientações para fazer depósitos adicionais, sob a promessa de que isso liberaria os saques, o que nunca aconteceu.

Polícia orienta vítimas a registrar ocorrência

Procurado pela reportagem, o delegado seccional de Marília, Wilson Carlos Frazão, informou que não há boletim de ocorrência registrado na cidade mencionando diretamente a Onyá Brasil até o momento.

Ele confirmou, no entanto, que o nome da plataforma aparece em registros e citações em outras regiões do Estado, especialmente no noroeste paulista.

Frazão explicou que o crime de estelionato é de ação penal condicionada à representação da vítima. “Sem que a vítima registre o boletim de ocorrência e formalize a representação, a polícia não pode agir”, esclareceu.

O seccional reforçou que é fundamental que os prejudicados procurem a Polícia. “Somente com os registros é possível dimensionar o alcance do esquema, identificar padrões, rastrear valores e, eventualmente, chegar aos autores”, concluiu.

Alerta à população

O caso acende um alerta para golpes que se apresentam com linguagem tecnológica, promessas de renda fácil e até estruturas físicas para aparentar legalidade.

Especialistas reforçam que não existe lucro alto, rápido e garantido sem risco e que esquemas baseados em indicações e tarefas irreais costumam esconder pirâmides financeiras.

Carlos Rodrigues

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