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Os Ideais Nossos de Cada Dia

Olá, caro leitor! Cá estou eu para conversarmos novamente.

Sei que o tempo para se dedicar a estas minhas palavras é curto e temos um mundo nas costas para carregar, mas façamos um pequeno esforço e vamos deixá-lo um pouco de lado. Só assim para refletirmos um pouco sobre algumas coisas.

Pois bem, começo o artigo de hoje com a seguinte afirmação: o Ideal não existe. Não na realidade. O que realmente existem são os Ideais que residem dentro da gente. Mas vamos começar pelas coisas nossas de cada dia.

Enxergamos nosso trabalho e o êxito profissional como grandes. Vemos nossa sociabilidade como grande. Percebemos o nosso companheiro(a), nossos relacionamentos afetivos e o carro sonhado como grandes. A beleza normatizada pela mídia, a promoção no emprego, a casa idealizada também. Para nós, deveríamos ser grandes ou minimamente, maiores do que somos.Com esse mar de informações que a pós-modernidade engendra, sofremos com o que de fato é grande e o Ideal é exigido a cada instante. Sentimos, por vezes, que carregamos o mundo nas costas. E precisamos ser perfeitos. Perseguimos a perfeição.

Temos uma parte dentro da gente que nos norteia pela censura e pela auto-observação (lembra-se da história da pizza e suas partes?). É a parte onde residem as exigências, às vezes cruéis e às quais procuramos nos manter conciliados. Encontramo-nos como sendo narcísicos apreciadores de nossas próprias realizações (ao menos em nossas terras mentais). E de quebra, elas ainda agradariam a terceiros.

Sempre damos o nosso melhor, mas ao mesmo tempo sofremos por perseguir e idealizar algo que nem sempre vai acontecer. E (inconscientemente) sabemos disso, ainda que não estejamos no controle. Tal qual a estória do cavalo que persegue a fruta que o cavaleiro, mantém à sua frente, perseguimos ilusões. Bem, lembra-se das nossas regras? Peço licença a você para inserir a quarta regrinha:

Regra 1: Não estamos em completo comando de nossa mente.

Regra 2: Vamos abstrair. A nossa mente é composta de representações.

Regra 3: Talvez não pareça, mas a mente é absurdamente complexa.

Regra 4: Na mente, coisas contraditórias podem coexistir.

 

Bem, retomando, posso afirmar que os nossos Ideais moram, sobretudo, dentro da gente (regra nº3). Mas o que, então, nos resta? Estou inclinado a dizer que o que resta é pesado. Um peso que nos encurva e que entorta a nossa envergadura: o peso das exigências.Assim, para compreender como funciona a dinâmica das exigências em nossas terras mentais, trago o mito grego do gigante Atlas:

Em tempos imemoriais, Atlas pertencia à geração divina de seres monstruosos, gigantes e violentos, forças do caos e da desordem. Eram os titãs. Irmão de Prometeu, Epimeteu, Menécioe filho de Jápeto e Climene, Atlas tinha a ambição de ser o senhor dos céus. Então, unindo-se a outros titãs que pretendiam alcançar o poder supremo, combateram as forças de Zeus e seus aliados,com o objetivo de tomar o Olimpo. No entanto, Zeus, triunfante, castigou seus inimigos e aprisionou alguns deles no Tártaro, a região mais profunda do mundo inferior. Atlas, porém, teve uma pena especial: foi condenado a sustentar os céus sobreos ombros por toda a eternidade. (adaptação de “O Livro da Mitologia”, de Thomas Bulfinch)

Atlas passou, então, a não conseguir realizar mais nada para além de sustentar o mundo. Diz a lenda que Hércules, em um de seus doze trabalhos, solicitou que Atlas colhesse as maçãs douradas de seu reino. Atlas teve, então, que se livrar de seu peso para poder fazê-lo, pedindo a Hércules que segurasse a carga por um instante.

Sabemos que a nossa mente funciona por meio de simbolizações, por representações das coisas. Atlas acaba, por assim dizer, representando aquele que sucumbe pelo Ideal que se tem de tudo. Desejava algo grande assim como ele e, por idealizar os céus, terminou por sustentar o mundo em suas costas.E tinha dificuldades para dar conta das coisas, por isso.

Penso que é notório que vivemos como Atlas, às vezes. Tudoqueremos e tudo idealizamos. É a vitrine, o artista da TV, queremos ser o melhor profissional, o melhor amigo, ter as melhores coisas, acertar sempre. Só que isso traz um peso. Atlas era um gigante, grande como o ser humano em suas potencialidades, mas assim como a imensidão dos céus, acaba por sofrer com o peso de seusIdeais (regra nº2). Assim como Atlas, sofremos por sustentar o peso dos nossas exigências (regra nº2).

Estátua de Atlas no palácio de Linderhof, Alemanha

Por outro lado, também há um Zeus dentro de nós: nos castigamos quando perdemos a batalha, quando o Ideal não é alcançado (regra nº2). Em nossa relação com as coisas, a depender do tamanho desses Ideais, não alcançamos mesmo. E aí, pronto! Frustramo-nos conosco. É nesse momento em as exigências aparecem relacionadas com sentimentos de culpa e de inferioridade, tão nossos de cada dia.

Mas aí você me diria: Leonardo, mas que loucura! Bem, em primeiro lugar, lembre-se que a nossa mente é complexa. Depois, digo que somos loucos, em partes. E sem exceção. Mas o bom é que também somos sãos.Psiquicamente, referente ao nosso “Eu Atlas”, reside aí o que em Psiquiatria chamamos de “Delírio de Grandeza”.

Em termos sociais, também criamos Ideais coletivos, também longe de serem possíveis. E em nossas relações com as nossas coisas e com as pessoas, também. E nos comparamos. Sim, pois devemos nos comportar correspondendo às nossas próprias expectativas, às exigências da nossa própria tirania.

Por fim, Atlas também tinha suas riquezas (as maçãs douradas de seu jardim). Porém, teve que deixar de lado todo aquele peso para poder colhê-las e ajudar Hércules.Penso que idealizar é importante para nos impulsionar.E até para conseguirmosalcançar o que desejamos. No entanto, também podemos sucumbir à intensidade do peso dos Ideais,inquilinos insistentes da nossa mente. Um paradoxo, não (finalmente, aqui vai a regra nº 4)?! Bem, psicologicamente eles estão aí, aqui e em todos nós. Assim como a fruta para o cavalo. E tão pesadocomo os céus.

Um abraço e até o próximo texto!

Marília Notícia

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