A técnica de enfermagem Luciana Marostega é uma das responsáveis por transformar solidariedade em ação em Marília e região. Ao lado do marido, ela fundou o Comando Operacional de Resgate e Salvamento (Cors), grupo voluntário que atua há cinco anos em buscas por pessoas desaparecidas, reunindo profissionais e colaboradores movidos pelo desejo de ajudar o próximo.
A iniciativa surgiu após o fim de uma equipe anterior da qual o casal fazia parte. Determinados a continuar o trabalho, eles criaram uma nova estrutura e deram início ao Cors, unindo experiência, preparo técnico e o gosto pela natureza em operações que exigem esforço físico e emocional.
Desde então, o grupo já participou de diversas buscas, algumas com desfechos marcantes, que reforçaram a importância do trabalho voluntário. Em meio a desafios e limitações, o grupo se mantém ativo graças ao engajamento dos integrantes e à missão de levar respostas e alívio a famílias em momentos de incerteza.
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Marília Notícia – Como começou esse trabalho voluntário de buscas e como surgiu o grupo atual?
Luciana Marostega – Há algum tempo, eu e meu marido fazíamos parte de outro grupo de buscas que acabou sendo extinto. Como queríamos continuar esse trabalho, resolvemos abrir um novo CNPJ e dar continuidade com o grupo Cors, que já existe há cinco anos. Nós sempre gostamos da natureza e de colaborar com as pessoas, então unimos o útil ao agradável nesse espírito de aventura e ajuda ao próximo.
MN – Como foi a primeira vez que participou de uma operação de busca?
Luciana Marostega – Foi muito marcante e aconteceu em 2019, na zona norte, no Jardim Santa Antonieta. O senhor Silvano estava desaparecido há cinco dias e o Corpo de Bombeiros já havia desistido de procurá-lo. Nós descemos em um local de difícil acesso, em um buracão, a cerca de 60 ou 70 metros de profundidade, utilizando cordas para nos amarrar nos locais mais perigosos. Dividimos as equipes, fomos bem ao fundo, ouvimos um barulho quando chamamos o nome dele e o encontramos vivo, o que foi o estopim para continuarmos o projeto.
MN – Como se sentiu salvando uma vida logo na primeira busca?
Luciana Marostega – Foi a minha primeira busca. A gente já tinha vontade de fazer e aconteceu isso. Foi muito gratificante pra gente. Quando a gente subiu, até as crianças estavam trazendo água pra gente, porque foi exaustivo. Para subir com a prancha, em um lugar muito ruim, era muito peso que a gente tinha para carregar, mas foi muito legal. Chegamos e o pessoal estava aplaudindo nossa equipe. A gente se sentiu heróis de verdade.
MN – Vocês realizam algum treinamento antes de atuar nessas operações?
Luciana Marostega – Sim, nós sempre temos treinamentos que envolvem rapel, manobras de desengasgo, imobilização e uso de colar cervical, que são conhecimentos úteis não só para buscas, mas para qualquer acidente na rua.
Hoje, nós mesmos do grupo ministramos esses cursos, pois sou técnica de enfermagem, meu marido é bombeiro civil, e temos outros profissionais da área da saúde e especialistas em rapel na equipe.
MN – Hoje o grupo conta com quantas pessoas e como novos voluntários podem ingressar?
Luciana Marostega – Atualmente, estamos na faixa de 25 a 30 integrantes, número que inclui até crianças que participam das nossas ‘atividades mirins’, em que ensinamos primeiros socorros básicos em gincanas. Para quem tem interesse em entrar, abrimos inscrições para novos voluntários duas vezes ao ano.
Reunimos os interessados aos domingos de manhã em uma chácara, explicamos o funcionamento, fazemos uma atividade de integração para avaliar o perfil de cada um e, para os que ficam, oferecemos um treinamento de seis meses, que ocorre uma vez por mês.
MN – Você tem noção de quantas buscas já participou?
Luciana Marostega – Não sei te falar precisamente, mas já foram várias. Porque sempre desaparece, né? Por mais que pareça que não, tem muita gente desaparecida.
MN – Quando alguém desaparece, como é que a informação chega para vocês?
Luciana Marostega – Hoje, com as redes sociais, é muito rápido. Então, é mais através das nossas redes sociais mesmo. A gente procura distribuir bastante cartão de visita para várias pessoas, porque nunca sabemos quando vai acontecer. Temos muito contato com bombeiros, que são nossos amigos. Às vezes, o contato é direto com eles também.
MN – Vocês atuam apenas em Marília ou em outras cidades? E quais casos mais te marcaram?
Luciana Marostega – Atuamos também em outras cidades da região, como Assis, Echaporã e Pompeia. O caso do senhor Silvano foi o que mais me marcou de forma alegre, pois o resgatamos com vida. Já o do menino Mateus Bernardo, que infelizmente foi esquartejado, foi o mais chocante.
Fomos nós que conseguimos, com a vizinhança, as imagens das câmeras dele andando de bicicleta e soltamos nas redes sociais. O mais recente foi o do João, aqui em Marília, que foi um caso muito triste.
MN – Nesse caso do João Raspante Neto, vocês estavam no local quando ele foi encontrado?
Luciana Marostega – Não. A equipe já tinha saído de lá fazia uns 20 minutos, mas havia uma galera lá que já fez parte do Cors. Eles estavam lá e nos avisaram assim que o corpo foi encontrado. Foi muito triste para todos nós.
MN – Chamou bastante atenção o número de pessoas participando das buscas, já que foi uma comoção geral aqui em Marília. Já tinha visto uma mobilização desse tamanho?
Luciana Marostega – Eu acho que nunca vi tanta gente empenhada dessa maneira para procurar alguém. O caso foi muito triste, ninguém esperava pelo desfecho, mas a mobilização das pessoas foi uma coisa bacana de se ver. O povo de Marília é muito solidário. Eu calculo que lá embaixo, só de moto, tinha umas 100 motos, fora os carros, caminhonetes, bicicletas e gente que foi andando até lá. Nunca vi uma mobilização com essa proporção.
MN – O que motiva vocês?
Luciana Marostega – Parece que a gente nasceu para isso. Procuramos ajudar as pessoas de todas as formas que você imagina. A gratidão que a gente recebe é muito grande. Quando encontramos alguém, mesmo que já sem vida, a gratidão das famílias não tem preço. É algo imensurável. Tirar aquela angústia da família ao encontrar um familiar com vida, ou mesmo em caso de morte, mas possibilitando esclarecer o que aconteceu e garantindo um sepultamento digno.
MN – O grupo recebe alguma ajuda financeira ou patrocínio para cobrir os custos?
Luciana Marostega – O nosso trabalho é totalmente voluntário e não cobramos absolutamente nada das famílias. Vamos tirando do próprio bolso para abastecer os veículos e continuar operando, o que torna tudo bem difícil, e é raro conseguir doações financeiras. Recentemente, conseguimos o título de utilidade pública da Prefeitura de Marília, o que pode abrir portas para alguma verba no futuro. O que mais precisamos e pedimos em doações são equipamentos para resgate, como cordas, mosquetões e capacetes. Chegamos a ganhar a doação de um carro modelo Gol ‘bolinha’, que usamos nas operações de difícil acesso, mas atualmente ele está quebrado e não temos condições de arrumar.
MN – O que poderia ser feito para facilitar e agilizar o trabalho de buscas na cidade?
Luciana Marostega – Gostaríamos muito de implementar um canal direto de comunicação rápida com a população, como um número de três dígitos específico para o Cors, semelhante ao 193 dos Bombeiros. No desaparecimento do João, por exemplo, o caso ocorreu entre 17h30 e 18h, mas nós só fomos acionados e chegamos ao local às 20h.
MN – Existe uma ideia, difundida ao longo dos anos, de que só é possível registrar o caso após 24 horas. É assim mesmo ou isso está errado?
Luciana Marostega – Não é mais assim. É importante que as pessoas saibam que não é mais preciso aguardar 24 horas para registrar um boletim de ocorrência em casos de sumiço. A partir do momento em que há convicção do desaparecimento, as buscas já devem começar, pois cada minuto conta muito para um desfecho favorável.
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