Eventual invasão russa à Ucrânia – o que segundo a agências internacionais pode acontecer a qualquer momento – está longe de ser uma retomada da Guerra Fria. A análise é do professor de relações internacionais Vinicius Albino de Freitas, graduado, mestre e doutor pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Marília.
Para o especialista, o mundo multipolarizado não autoriza esse tipo de visão. “Há uma outra ordem, na qual temos diversas potências, não mais aquele mundo polarizado entre as nações aliançadas com os Estados Unidos ou com a Rússia”, afirma. O professor cita, por exemplo, a China, potência que emergiu nas últimas décadas.
Embora não tenham relação direta com a questão Russa, grandes potências como a China sabem que em uma economia global ninguém escaparia ileso das consequências de um conflito armado, envolvendo o segundo maior poderio militar no planeta, em pleno território europeu.
Freitas avalia que a guerra pode ser iminente, mas ainda assim, improvável. Na escalada das tensões, o cenário é possível. E o motivo é bastante simples: “O poder russo é desproporcional. Em caso de ataque, Putin sabe que há também muito o que perder”, pondera o analista.
A eventual invasão da Ucrânia, um país de 40 milhões de habitantes, seria interpretada por uma grande parte do mundo como uma ação injustificada e desproporcional. Muitas sanções podem recair sobre a Rússia, gerando um isolamento que não favorece nem ao próprio governo autoritário do presidente Vladmir Putin.
RESSENTIMENTO
A expressão Otan soa como ofensa a muitos russos, mesmo após quatro décadas da queda do Muro de Berlin, símbolo da divisão global. O presidente de discurso nacionalista – e parte da população – ressente do fim da União Soviética e vê ameaça à soberania do país, com o ingresso da Ucrânia no tratado de defesa liderado pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e potências europeias.
O professor pontua ainda outras demandas. “O interesse central da Rússia é não ter um vizinho na Otan, para manter a influência na região. Vale lembrar que o gás natural que os russos vendem para a Europa Ocidental passa pela Ucrânia”, ressalta o docente de Relações Internacionais.
BRASIL
Para o estudioso, o Brasil não tem nada a ganhar com o conflito, inclusive por fazer parte de um bloco com a Rússia no BRICS, e também por ter nos Estados Unidos um grande parceiro comercial.
Freitas lembra que a visita do presidente Jair Bolsonaro (PL) já estava marcada antes da tensão militar. A presença no Brasil em solo russo, destaca, não tem o condão de piorar a política externa do Brasil, que seria “equivocada” há vários anos.
“Querendo ou não, nós somos uma potência regional. Mas não estamos exercendo mais essa influência. O Brasil virou uma área, pela política externa que escolheu, principalmente na figura do ex-ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo”, diz o docente.
Para o pesquisador, em eventual caso de guerra e crise humanitária, é improvável que o Brasil seja um dos países que irá acolher refugiados, apesar de ser tradição do povo brasileiro. O movimento migratório só não será maior por conta da crise econômica e política brasileira.
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