No asfalto quente da periferia, a palavra vira escudo, denúncia e esperança. Entre batidas marcadas, microfones improvisados e rodas que se formam em espaços antes esquecidos, jovens transformam vivências duras em rima e resistência.
Em Marília, o hip hop deixou de ser apenas expressão artística para se consolidar como ferramenta de educação, acolhimento e transformação social — um movimento que escancara, por meio da música, a luta diária de centenas de famílias e oferece novos caminhos a quem, muitas vezes, só conheceu os limites impostos pela desigualdade.
É nesse contexto que o movimento hip hop em Marília vive uma fase de expansão e consolidação, transformando espaços públicos antes abandonados em centros de cultura e educação.
Sob a liderança de figuras locais como Washington Henrique, conhecido como Rick Miguel ou Quick, a cena deixou para trás um passado de divisão e se tornou uma força unificada, capaz de reunir milhares de pessoas e revelar novos talentos.
A trajetória recente do movimento na cidade é marcada pela resiliência. Inicialmente concentrados na antiga estação ferroviária, com a tradicional Batalha da Estação, os coletivos precisaram buscar novos espaços devido às constantes indefinições sobre o uso do local e às desocupações recentes.
A alternativa encontrada foi a ocupação e a revitalização de áreas públicas. Há cerca de dois anos, o grupo obteve autorização para utilizar o poliesportivo do bairro JK e o centro comunitário do Jânio Quadros, que estavam em situação de abandono.
Atualmente, os espaços funcionam como sede do movimento e oferecem diversas atividades gratuitas à comunidade, como aulas de break, capoeira, jiu-jitsu e muay thai.
“Estamos regulamentando agora a nossa instituição. Para ficar mais fácil para buscar recursos, que é algo difícil, ainda mais quando você fala hip hop ou rap, que já foram muito marginalizados”, afirma Quick.
Mais do que entretenimento musical, o hip hop consolidou-se em Marília como ferramenta educacional. Segundo Quick, o movimento conseguiu demonstrar seu valor e hoje faz parte do debate dentro das escolas. “Se a gente não educar, a gente não pode cobrar”, diz.
A atuação também ocorre diretamente nas instituições de ensino por meio do projeto Hip Hop nas Escolas, que promove batalhas de MCs e de poesia, os chamados slams.
Letras fortes, carregadas de vivências do cotidiano, dão voz a realidades frequentemente invisibilizadas e criam identificação imediata com jovens que se veem retratados nas rimas.
Quick destacou que o trabalho é realizado por um coletivo unido, formado por integrantes como Luciano e Adriano, e relembrou que teve a própria vida transformada pelo hip hop nos anos 1990, ao conhecer grupos como os Racionais MC’s.
“Hoje em dia o hip hop salva vidas, como salvou a minha e está salvando a de vários jovens”, acrescenta.
Marília no Circuito Nacional
A organização e a seriedade do trabalho vêm atraindo parcerias e possibilitando a realização de grandes eventos. Recentemente, por meio de articulação com a deputada estadual Márcia Lia e o coletivo Acesso Popular, de Bauru, Marília passou a integrar o circuito cultural regional.
Dessa parceria resultou um evento no Poliesportivo do JK que reuniu mais de três mil pessoas, com apresentações de nomes do rap nacional como Realidade Cruel, Afro-X e Crônica Mendes.
“Foi lindo, sem ocorrência nenhuma, com criança, idoso, adulto. O nosso movimento não para. É carente ainda de apoio, porque, querendo ou não, é periférico. Se não dá lucro, o povo não quer, mas a gente não desiste. A gente está metendo marcha e continuando, graças a Deus. Estamos num crescimento bom”, destaca Rick Miguel.
Além dos shows, Marília também sedia o festival União das Batalhas, que caminha para a quarta edição. O evento conta com jurados e apresentadores de renome e conecta os jovens da cidade ao cenário nacional, ampliando horizontes e mostrando que a arte produzida na periferia pode ultrapassar fronteiras.
Celeiro de novos talentos
A estrutura montada no JK também tem como objetivo profissionalizar os artistas locais. O projeto Clássicos do Rap promove encontros mensais para que grupos da cidade e da região se apresentem com qualidade técnica, possibilitando a criação de portfólio e material digital para divulgação.
Os resultados já começam a aparecer. Na última edição do festival União das Batalhas, um jovem de 15 anos, conhecido como Biel, superou 16 MCs e garantiu vaga na Batalha da Aldeia Kids, em Barueri.
A trajetória de artistas que vivem da música, como Emicida e Orochi, serve de referência para que a juventude mariliense enxergue a arte como possibilidade real de futuro e ascensão social.
Apesar dos avanços, o movimento ainda enfrenta dificuldades financeiras e segue em processo de regulamentação formal para facilitar a captação de recursos. A meta é reformar adequadamente o espaço do JK e ampliar a oferta de oficinas, incluindo DJ e grafite, fortalecendo ainda mais a profissionalização dos jovens.
Para agosto, está prevista a realização da Semana do Hip Hop, conquista obtida junto à Secretaria de Cultura ainda na gestão anterior. Já em setembro, deve ocorrer o retorno do festival União das Batalhas, que, na última edição, atraiu competidores de cidades como Santos, Presidente Prudente, Pompeia e Assis.
Para Quick e o coletivo, o trabalho é contínuo e nasce da necessidade de ocupar espaços que, sem o movimento, permaneceriam vazios — de concreto e de oportunidades.
“É um movimento de humildade, um movimento de coletivo que, se não for junto, não vai”, conclui.
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