O feminicídio não é um fato isolado, um desvio pontual ou uma tragédia imprevisível. Ele é o estágio final de uma violência que começa muito antes — no controle, na intimidação, na agressão verbal, no ciúme travestido de cuidado, na ideia absurda de que mulheres podem ser possuídas, corrigidas ou dominadas pela força.
É impossível ignorar a pergunta central: por que tantos homens ainda acreditam que têm o direito de controlar mulheres pela violência? Essa mentalidade não surge do nada. Ela é construída, reforçada e, muitas vezes, tolerada socialmente. Cada agressão relativizada, cada ameaça minimizada, cada “briga de casal” tratada como algo menor ajuda a criar o ambiente em que o pior acaba acontecendo.
Relacionamentos não são fáceis. Traições acontecem. Brigas acontecem. Decepções, frustrações e atitudes mesquinhas fazem parte da vida adulta. Nada disso é novidade — e nada disso justifica violência.
Em hipótese alguma conflitos afetivos podem ser resolvidos com agressão física. Nenhuma traição autoriza um tapa. Nenhuma discussão legitima um empurrão. Nenhuma raiva justifica um soco. Quando a violência entra em cena, qualquer argumento anterior perde totalmente a validade. Não se trata mais de relação, mas de crime.
Nos últimos anos, o Brasil avançou no endurecimento das penas para crimes de violência contra a mulher. Isso é necessário e correto. Mas é insuficiente. A sensação que predomina é a de que muitos dos autores desses crimes ficam pouco tempo presos, enquanto as famílias das vítimas carregam a dor, o luto e a revolta pelo resto da vida. A tragédia não termina com a sentença. Ela se perpetua.
O problema, muitas vezes, não está apenas na lei escrita, mas na sua execução. Falta rigor, falta prioridade, falta acompanhamento. A sociedade já não suporta mais a lógica recorrente de a polícia prender e a Justiça soltar.
Quando agressores são detidos e rapidamente retornam ao convívio social por falhas processuais, benefícios precoces ou decisões desconectadas da gravidade do crime, a mensagem transmitida é devastadora. Isso gera sensação de impunidade, desestimula denúncias e mina a confiança da população no sistema de Justiça. Para quem perdeu uma filha, uma irmã ou uma mãe, cada soltura precoce representa uma nova violência institucional.
Ainda assim, é preciso reconhecer: nenhuma lei, por mais dura que seja, resolverá sozinha um problema que também é cultural e educativo.
É urgente ensinar, de forma reiterada, que não se encosta a mão em uma mulher. Sob nenhuma hipótese. Não por raiva, não por ciúme, não por frustração, não por “perda de controle”. Isso não é opinião — é regra básica de convivência civilizada. Isso precisa ser aprendido em casa, reforçado na escola e cobrado pela sociedade.
Da mesma forma, é fundamental fortalecer meninas e mulheres para que entendam algo igualmente essencial: nenhum tipo de agressão deve ser admitido. A primeira violência nunca é pequena. Foi vítima uma vez? Não relativize. Não espere melhorar. Não volte. Corte o mal pela raiz. A história mostra, repetidamente, que a escalada é real — e muitas vezes fatal.
Combater o feminicídio exige endurecimento legal, execução efetiva das penas, educação contínua e mudança profunda de mentalidade. Exige, sobretudo, que a sociedade pare de tratar esse tipo de crime como exceção e passe a encará-lo como o que ele é: um fracasso coletivo que precisa ser enfrentado com firmeza, sem desculpas e sem tolerância.
Enquanto isso não acontecer, novas tragédias continuarão sendo anunciadas. E a pergunta seguirá ecoando: até quando?
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