Marília e região

‘Estou vivo por um milagre’, diz sobrevivente de tragédia na BR-153

Trabalhador rural Carlos Eduardo com sua bíblia na mão (Foto: Rodrigo Viudes/Marília Notícia)

‘Estou vivo por um milagre’, afirmou o trabalhador rural Carlos Eduardo de Almeida Mendes, 22 anos, em entrevista exclusiva ao Marília Notícia. O jovem é um dos passageiros feridos no capotamento de um ônibus, ocorrido na madrugada desta segunda-feira (16), na rodovia Transbrasiliana (BR-153), em trecho próximo a Marília.

Além dele, mais de 40 trabalhadores rurais sobreviveram ao acidente. Pelo menos seis mortes foram confirmadas.

Ainda na manhã de ontem, Carlos Eduardo foi o primeiro sobrevivente acolhido na Casa Cidadã, espaço de passagem do município, mantido pela Secretaria de Assistência Social e Cidadania, com capacidade para 46 pessoas.

Casa de Passagem vai abrigar sobreviventes de tragédia na BR-153 (Foto: Rodrigo Viudes/Marilia Noticia)

O local, que atende diariamente pessoas em situação de rua, foi disponibilizado pela Prefeitura para receber os feridos que tiveram alta hospitalar, com oferta de cama, alimentação e banho.

Ele recebeu atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da zona sul, onde foram constatadas escoriações pelo corpo, provocadas por estilhaços de vidro, além de uma fratura na costela

Ao chegar à casa de passagem, Carlos Eduardo trazia apenas uma mochila e uma Bíblia nas mãos. Assembleiano, relatou que sua primeira reação após o acidente foi de gratidão. “Quando eu me levantei e percebi que estava vivo, a minha primeira reação foi agradecer a Deus pela vida”, afirmou.

Estouro de pneus

Segundo o sobrevivente, os problemas começaram ainda durante a viagem. De acordo com o relato, o veículo apresentou falhas sucessivas. “Quebrava, furava pneu. Tinha hora que nós passávamos mais de duas horas, três horas de relógio esperando.”

Carlos Eduardo recebe atendimento de serviço social na Casa de Passagem (Foto: Rodrigo Viudes/Marília Notícia)

Ele afirmou que o ônibus já apresentava irregularidades desde o início do trajeto, de mais de 3,5 mil quilômetros. “O pneu que haviam colocado parecia ser um menor e outro maior, do mesmo lado. O ônibus vinha meio torto. Todo mundo comentou isso.”

As condições de trafegabilidade teriam se agravado quando o veículo se aproximava de Marília. “Primeiramente o pneu furou numa curva. Aí o fundo do ônibus começou a balançar. Os caras pararam logo. O ônibus estava na descida, bem rápido”, disse.

Segundo ele, após o primeiro problema, o coletivo voltou a apresentar falhas. “Depois começou a descontrolar, balançar mais e mais e estourou outro pneu. Daí para frente só me lembro quando me levantei, porque ele já estava caído no barranco.”

Cenas de desespero

Carlos Eduardo afirmou ainda que o ônibus não dispunha de cinto de segurança para os passageiros. Após o capotamento, descreveu momentos de desespero. “Eu me levantei e tinha muita gente gritando, pedindo ajuda. Muita gente dentro do ônibus ainda.”

Ele contou que ouviu um amigo pedindo socorro. “Eu escutei um amigo meu pedindo ajuda.” O grupo que conseguiu sair do veículo passou a auxiliar os demais. “Nós vimos que todos já estavam vivos. Aí nós fomos ajudar as outras galera que estavam no chão.”

Carlos Eduardo disse ter visto vítimas fatais no local. “Vi três pessoas mesmo mortas. Estavam quebradas no chão”, relatou. Segundo ele, o socorro chegou cerca de 15 minutos depois. “Chegaram de todo lado.”

Colheita de maçãs

O ônibus havia saído de Santa Luzia do Paruá (MA) na sexta-feira, com previsão de chegada na madrugada desta segunda-feira (16), para trabalho na colheita de maçãs no interior de Santa Catarina. Carlos viajava a convite de um amigo que já havia trabalhado no mesmo local.

De acordo com ele, os trabalhadores não pagaram pela viagem e quase a totalidade dos passageiros era formada por homens. Parte do grupo seguiu viagem em outro ônibus após o acidente.

Carlos afirmou que conhecia apenas os amigos que viajavam com ele e disse não conhecer nenhuma das vítimas fatais. Confirmou ainda que havia uma criança no ônibus e que, segundo as informações que recebeu, ela não teria se machucado.

Gratidão pela acolhida

Após o acidente, a primeira providência foi avisar a família. Carlos contou que telefonou para a mãe, que está grávida do quarto filho. Disse que não conhecia Marília e agradeceu a acolhida recebida. “O pessoal aqui é bem acolhedor. Tem lugar que a gente vai que o povo nem liga.”

Solteiro, ele ainda não definiu os próximos passos. Afirma que, em sua cidade natal, há poucas oportunidades de trabalho. Já atuou como pedreiro e decidiu viajar em busca de emprego. “Tentei me aventurar aqui pro sul do Brasil. Agora só quero ir para casa”, declarou.

Rodrigo Viudes

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