Marília

Diretora de escola, mariliense supera a escuridão há 26 anos

Crianças brincam com o cão-guia Opie, que eventualmente acompanha Maria Rosa; o animal tem dez anos e está aposentado (Foto Divulgação/Arquivo Pessoal)

A história da mariliense Maria Rosa Delmasso Rodrigues, de 55 anos, vale um livro, incluindo edição especial em braille. “Quando você abre mão de fazer o seu melhor, a vida vai cobrar de você”, ensina a servidora pública municipal, deficiente visual desde 1995. Durante 16 anos ela lutou para assumir o cargo para o qual foi aprovada em concurso público.

Hoje, Maria dirige a escola municipal de Educação Infantil (Emei) Primavera, no Parque das Nações, uma região carente na zona Norte de Marília.

É lá que a servidora supera a ausência de luz provocada pela cegueira e desenvolve novas habilidades a cada dia, com a finalidade de servir as pessoas.

As lições da educadora vão muito além da pedagogia. São aulas para vida.

Quando seu o mundo ficou escuro, em 1995, a então professora de educação infantil havia acabado de ser aprovada em um concurso público para diretora.

Ela teve descolamento de retina e perdeu 100% da visão. Além de muitos desafios, Maria Rosa tinha um filho com apenas um ano e meio de vida. A readaptação era a única opção.

“As pessoas queriam fazer tudo por mim. É importante receber ajuda, mas eu decidi aprender a viver da forma como eu estava. Não foi fácil, mas decidi que eu faria o possível para continuar sendo uma pessoa capaz de servir, não apenas ser servida”, relata.

Educadora durante desfile com cão-guia Opie (Foto Divulgação/Arquivo Pessoal)

REABILITAÇÃO

Após série de cirurgias e do primeiro impacto provocado pela deficiência, a servidora passou a dedicar ainda mais tempo aos estudos, algo inerente à vida de todo professor.

Mas agora, tudo era diferente. “Fui aprender braille, informática para deficientes visuais, me dediquei a conhecer os recursos que tínhamos na época. Era a minha reabilitação”, conta.

O processo – por vezes doloroso – incluía restrições sociais. O trabalho foi uma perda praticamente imediata.

“Fui impedida de voltar para a escola e também não deixaram eu tomar posse no concurso. Foi declarada incapaz, embora não me sentisse assim. Foi só o começo da minha luta”, relata.

Maria Rosa descobriu o quanto a sociedade estava despreparada para lidar com o deficiente visual. A má notícia é que – quase 30 anos depois – muito ainda não mudou.

Começa com as necessidades simples, como a comunicação. Ainda há quem grite com as pessoas cegas, como se houvesse necessidade.

Há também pessoas que puxam pelo braço, para ajudar a atravessar a rua, sem ao menos perguntar se esse é o desejo do pedestre sem visão.

“Meu filho tinha três anos e eu saía com ele, usando bengala. Eu tropeçava e algumas pessoas diziam: ‘menino, toma cuidado com a sua mãe’. Mas ele era só uma criança. As pessoas não entendiam: era eu quem estava cuidando do meu filho, não o contrário”, conta.

DIREITO AO TRABALHO

Educadora faz palestra e inspira pessoas de diferentes setores (Foto Divulgação/Arquivo Pessoal)

Ser percebida pelo próximo como uma pessoa em reabilitação e, depois, uma profissional apta e com várias habilidades, virou razão de viver. As conquistas para a reinserção deveriam gerar algum mérito, pensava.

Mas a educadora foi rejeitada pela Secretaria Municipal de Educação, na época. A solução foi sair de Marília. No município de Itajaí, em Santa Catarina, foi rapidamente empregada em uma escola onde eram atendidos alunos cegos. Maria Rosa era a única professora com deficiência visual. Ela ensinava leitura e escrita em libras.

“Quem disse que cego não vai para a praia? O segredo era chegar procurando o salva-vidas. Era por ali que a gente ficava, deixava os objetos. Para sair da água, era até engraçado… Ao invés de ir para frente, acho que a maioria das pessoas perder um pouco a referência, não volta para o mesmo lugar. Mas para cego era bem pior. Saía longe e alguém ia resgatar (risos)”, recorda com bom humor.

Depois de um período no Sul, Maria Rosa ainda viveu em Ubatuba e Caraguatatuba, no Litoral Norte de São Paulo, sempre trabalhando como professora e mentora de projetos de educação especial.

VOLTA POR CIMA

Ela só conseguiu tomar posse no cargo gerencial cinco anos depois do concurso. Mas, para sua surpresa, logo após a nomeação, acabou recebendo a “aposentadoria compulsória”.

“Minha luta não era pelo salário de diretora, mas para exercer. Sempre que eu vinha visitar meus pais, procurava o Instituto de Previdência Municipal de Marília (Ipremm)”, conta.

Durante viagem aos EUA, onde Rosa participou de capacitação internacional (Foto Divulgação/Arquivo Pessoal)

Em 2009, um procurador do município aceitou revisar o caso. Maria Rosa foi admitida na Rede Municipal de Educação, como profissional reabilitada, em 2011. A vitória dela teve significado além de uma conquista pessoal, mas um triunfo da educação inclusiva.

Profissionais cegos em cargos de chefia – ou que envolvam tarefas mais complexas -, como a direção de uma escola, ainda são raros. A educadora representa o sucesso da reabilitação e também o reconhecimento do Poder Público à equidade.

A diretora lembra que todas as pessoas têm limitações e podem desenvolver diferentes habilidades. Para algumas tarefas, a servidora “toma emprestado os olhos” dos colegas de trabalho, assim como coloca sua experiência e conhecimento à serviço da Emei Primavera e da comunidade.

“Me emocionou muito o relato de uma estagiária que passou pela nossa escola. Ela descreveu, no relatório final, o impacto que a minha presença, no portão da escola, recebendo as crianças, as famílias, causava naquelas pessoas. Eu não vejo, mas eu sinto, eu percebo o mundo à minha volta e me comunico. Isso repercute. A nossa postura diante das situações é que determina quem nós somos, do que somos capazes”, diz.

Para que mais pessoas como Rosa exerçam seu chamado de liderança, além de todo apoio das pessoas do entorno, é preciso mais investimentos em tecnologia e conhecimento. “Eu vivi uma fase de muito desenvolvimento, em relação à reabilitação. Infelizmente, vemos que estes recursos têm ficado cada vez menos acessíveis. Nosso país retrocede, nesse sentido”, alerta a diretora mariliense que aprendeu a ensinar em múltiplas linguagens.

Professora com cão (Foto Divulgação/Arquivo Pessoal)

Carlos Rodrigues

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