Variedades

De São Paulo para Nova York em um salto de balé

Uma corrente de solidariedade vai transformar o sonho do bailarino Wendel Vieira Teles dos Santos, de 12 anos, em realidade. Em abril, ele vai se apresentar no Youth America Grand Prix (YAGP), em Nova York. Até a última quarta-feira, uma vaquinha virtual para arrecadar recursos para essa viagem contava com apenas R$ 1 mil. Ontem, após a publicação de sua história pelo estadao.com.br, a vaquinha já ultrapassava os R$ 30 mil.

Acostumado aos movimentos precisos do balé, Wendel não se privou do prazer de simplesmente pular na cama ao saber da notícia. “Queria agradecer todo mundo”, disse. “Meu pai está descabelado de tanto responder mensagens. Estou vendo meu sonho chegar mais perto.”

A história do menino bailarino começou quando ele ainda tinha 8 anos – e já causava espanto ao abrir espacate no meio da rua, em frente à casa da família, no conjunto habitacional Fazenda do Carmo, no extremo da zona leste de São Paulo. A habilidade era fruto do empenho nas aulas de street dance. Mas foi o pai, Edson Creuso Teles dos Santos, de 47 anos, que, percebendo a aptidão do filho, fez a seguinte sugestão: “E se você fizesse balé para melhorar ainda mais sua flexibilidade?”. No início, o garoto estranhou e respondeu com um “balé é coisa de menina”. A mãe, Marleide de Jesus Vieira, de 43 anos, acompanhou a reação do filho e também ponderou ser o balé “uma coisa não muito adequada”.

Não à toa, Wendel chora ao falar do pai. Foi ele quem insistiu e explicou para a família que o balé é para todo mundo, independentemente de gênero. “Devo muito ao meu pai, foi ele quem primeiro me levou às aulas e sempre me apoiou. Graças a ele eu estou aqui hoje.”

O “aqui” de Wendel é o início de uma carreira profissional no balé, com apresentações no Teatro Municipal, prêmios em festivais como o de Joinville e às vésperas de dançar no YAGP, em Nova York – ocasião em que poderá se apresentar para “olheiros” das principais companhias de dança do mundo. Apesar da classificação para o YAGP, a organização não se responsabiliza por gastos da viagem – estimados em R$ 27 mil.

A família de Wendel tentou arrecadar a quantia por meio de vaquinhas de internet, rifas e a venda de uma camiseta. Até quarta, havia arrecadado pouco mais de R$ 300 com a venda de camisetas e atingido R$ 1 mil na vaquinha virtual. Com a publicação de sua história pelo Estadão, a corrente de solidariedade fez com que muitos leitores apoiassem o sonho de Wendel.

Até ontem à noite, o valor arrecadado era de R$ 32.871,94. O garoto também recebeu mensagem de apoio de Thiago Soares, brasileiro que se tornou o primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres. Além disso, o influenciador digital Felipe Neto teve o nome marcado em uma publicação sobre Wendel. Ao saber do que se tratava, interessou-se pela história e também vai ajudar a custear a viagem.

Superação

Wendel já superou o bullying na escola, o comportamento dos colegas que no início o isolavam por ser um “menino dançarino” e também já venceu a competitividade e a inveja de outros bailarinos – em uma ocasião teve seu figurino cortado por um colega.

Todos os dias, enfrenta uma rotina que começa às 6 horas, quando acorda para ir à escola. Ao voltar, almoça rápido e vai para os ensaios no bairro da Mooca. Na maioria dos dias, vai de transporte público (dois ônibus e um metrô). No caminho, ouve rap nos fones de ouvido – atualmente, muito Racionais e Emicida. Apoiado pela ONG Social Bom Jesus, Wendel ensaia em uma sala no Mooca Hall. A professora Priscilla Yokoi diz que “além de todas as ferramentas de um bom bailarino”, o menino tem amor pela dança. Para ela, a importância de ir a Nova York é a oportunidade que Wendel terá de ver outros garotos, bailarinos de todo o mundo, iguais ou melhores, em ação.

Diariamente, Wendel continua ensaiando, repetindo movimentos complexos e perseguindo a delicadeza e a precisão. Como incentivo, ele se inspira no bailarino e coreógrafo Carlos Acosta, do Royal Ballet. “Ele é cubano e negro. Tem uma história com algumas semelhanças com a minha”, diz o garoto.

O maior sacrifício, diz, tem sido abdicar de coisas típicas da idade. “Tento dormir cedo e não ficar tanto tempo no celular. Evito jogar bola para não me machucar. E, apesar de gostar muito, tenho evitado McDonald’s e Burguer King.” Ao que tudo indica, no próximo dia 8 de abril, ele estará embarcando para Nova York. Na mala, além das sapatilhas (e a vontade de visitar um fast-food), o menino levará a torcida e o carinho de muito gente.

Agência Estado

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