Tecnologia

Como o Google quer lidar com a fadiga de videochamada

Um dos principais fenômenos do período de isolamento social é a “fadiga de Zoom”, nome dado ao cansaço excessivo provocado por chamadas de vídeo. Embora o problema leve o nome de um concorrente, essa foi uma questão que o Google precisou enfrentar também no último ano no desenvolvimento do Google Meet, sua ferramenta de videochamadas.

“Internamente, chamamos o problema de ‘fadiga de reunião (do inglês, meeting fatigue)”, conta ao Estadão Dave Citron, diretor de produto do Google Meet. “Em nossos estudos, detectamos que problema é real. Ele normalmente está associado a situações de trabalho ou de escola”, conta ele em videochamada feita com a reportagem.

O executivo cita que os usuários da plataforma da empresa relataram cansaço ao ficarem expostos à própria imagem. É uma conclusão parecida com a de uma pesquisa da Universidade Stanford publicada no final de fevereiro – entre os quatro motivos listados pelo estudo acadêmico estava a alta exposição à própria imagem. Posteriormente, um novo estudo de Stanford mostrou que mulheres sofrem mais com problema.

Com as pesquisas debaixo do braço, o Google decidiu renovar o design do Google Meet. Agora, o usuário poderá redimensionar a janelinha onde aparece seu próprio rosto. Será possível esconder a própria imagem sem deixar de mostrá-la para os envolvidos na conversa. Outras opções serão reposicionar ou diminuir o tamanho da janela, permitindo o foco em outros conteúdos ou contatos. As mudanças foram implementadas na semana passada.

“Percebemos também que parte do cansaço está atrelada à monotonia, por isso acrescentamos também fundos animados, que permitem aumentar a descontração”, explica Citron. Esse não é um quesito apontado pelo estudo de Stanford, mas o Google acredita que as animações podem ajudar.

De fato, algumas coisas não podem ser ajudados pela tecnologia. O diretor de Google Meet conta algumas de suas estratégias pessoais para fugir do problema. “Reservo pausas para levantar e tomar água. Também reservo momentos na agenda para não realizar chamadas e ficar quieto com outras atividades”, diz ele.

Importância

As mudanças no design mirando o comportamento de usuários parecem detalhes, mas se tornaram fundamentais para o Google Meet. A plataforma, que antes era apenas uma ferramenta do pacote corporativo, assim como planilhas e calendário, mudou de status na pandemia. Com o home-office e a educação à distância, ela se tornou um dos principais produtos do Google.

Isso, claro, foi um movimento que aqueceu todo o mercado e viu o surgimento de candidatos a rivais antes improváveis. O Zoom, por exemplo, registrou crescimento de 370% no quarto trimestre de 2020 em relação ao mesmo período em 2019. Rivais do mundo corporativo, como Microsoft e Cisco, passaram a fazer investimentos. E até serviços voltados para o consumidor final, como o WhatsApp, registraram aumento de videochamadas.

Para não ficar para trás, o Google abriu o Meet – há um ano, a ferramenta, que antes era exclusiva do mundo corporativo, ficou gratuita. Deu resultado: no primeiro ano, o uso do Google Meet foi multiplicado por 20 só no Brasil. Desde janeiro, o crescimento é de 275%.

O aumento do fluxo foi global, o que forçou o Google também a se reorganizar internamente. Citron diz que a sua equipe quadruplicou. Foram absorvidas em uma única equipe todos os projetos do Google que envolviam videochamadas. Os engenheiros do Google Duo, um app de videochamadas que nunca conseguiu rivalizar com WhatsApp, foram deslocados para trabalhar no Meet.

Futuro

Mesmo com o fim da pandemia, a projeção para o futuro é que as videochamadas não devem cair. “Estamos monitorando países que já estão abrindo e a taxa de uso permanece extremamente alta quando comparada com os número de antes da pandemia”, conta ele.

Um outro problema detectado com o alto volume de videochamadas, porém, parece sem solução: a necessidade de baixar e usar programas diferentes para falar com pessoas diferentes. “A indústria precisaria trabalhar num padrão de comunicação entre plataformas. E não acho que isso vai acontecer”, diz ele. Ou seja: estamos longe do momento de sair deletando software. Uma pena.

Agência Estado

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