A postura do Ministério da Saúde de não negociar a compra de doses da Coronavac com o Instituto Butantã pode levar o País à inédita situação de não ter imunizante em número suficiente para a própria população e, ao mesmo tempo, estar exportando itens para países vizinhos. O alerta foi feito pela epidemiologista Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que integra o grupo técnico epidemiológico de apoio à elaboração do Plano Nacional de Imunização (PNI).
Na noite de anteontem, o grupo divulgou nota pública na qual faz um apelo ao governo para que sejam “imediatamente abertas negociações” com o Butantã e para que imunização do País comece “o quanto antes” e não somente em março, como se chegou a anunciar. “Seria desastroso ter as doses da vacina produzidas no Brasil sendo vendidas para outros países. Vários países da América Latina já estão abordando o Butantã para comprar a Coronavac”, disse Maciel. “O Butantã já é responsável por mais de 70% da produção de vacinas que fazem parte do PNI; essa posição (de não negociar com ele) não faz o menor sentido.”
Para a especialista, seria igualmente “desastroso” se cada Estado do País fizesse campanha de imunização independente, negociando individualmente a compra de vacinas. “A chance de dar errado é muito maior”, advertiu a epidemiologista. “O processo precisa ser muito bem coordenado. Uma pessoa não pode tomar vacina em um Estado e depois outra em outro, por exemplo. Ou tomar a primeira dose e não a segunda.”
Por causa de uma disputa política entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador João Doria, a Coronavac não está sendo oficialmente considerada pelo ministério para a campanha de imunização. A nota do grupo técnico pede que as decisões tenham por base evidências científicas e não “em eventuais cenários políticos de fundo”.
O grupo que assina a nota pública tem especialistas de Fiocruz, USP, UFES e Médicos Sem Fronteiras, entre outros. Eles pedem “o esforço das autoridades para incorporar em sua estratégia (…) todas as vacinas que se mostrem eficazes”.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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