Com a aproximação da Semana Santa, igrejas de Marília registram aumento na participação de fiéis em missas, vias-sacras e momentos de oração. O período da Quaresma, que antecede a celebração da Páscoa, é tradicionalmente marcado por práticas de reflexão, penitência e solidariedade entre os católicos. Mais do que a simples abstinência de carne, o tempo litúrgico convida à mudança de atitudes e ao fortalecimento da fé.
Em Marília, a tradição de abdicar de certos costumes, especialmente o consumo de carne vermelha, ainda se mantém viva entre os fiéis, que encaram o sacrifício diário como forma de aproximação com o sagrado e de ajuda ao próximo.
Para compreender o verdadeiro sentido desse tempo, o padre Tiago Barbosa, da Paróquia Santa Rita de Cássia, no bairro Nova Marília (zona sul), explica que a Quaresma funciona como um “grande retiro”. Segundo o pároco, é uma oportunidade para que os católicos se unam cada vez mais a Jesus por meio de três práticas essenciais: oração, jejum — acompanhado da penitência — e caridade.
“Nesse período de quaresma, eu proponho à paróquia uma penitência semanal. A cada semana, como uma grande motivação pastoral, nós tiramos algo de forma comunitária. Eu sigo essa motivação que eu faço na paróquia. A Quaresma é como que um grande retiro onde todos nós católicos temos a oportunidade de nos unir cada vez mais a Jesus. O objetivo é que, na união com Cristo, na Semana Santa, consigamos morrer com ele e ressuscitar a uma vida nova”, disse o padre.
A visão do sacerdote sobre o propósito das privações encontra eco na vivência da moradora Sandra Farias. Para ela, o sacrifício precisa ter impacto social.
“Não adiantaria eu não comer carne e não fazer o bem ao próximo. A verdadeira penitência ocorre quando a pessoa deixa de comprar a carne e reverte aquele dinheiro em doação e caridade para quem precisa. Eu mantenho o hábito de não consumir carne na Quaresma desde os 10 anos de idade, época em que fiz a primeira eucaristia e aprendi sobre a tradição com irmãs e seminaristas”, afirmou.
Outra fiel mariliense que leva a tradição a sério é Idalina Alves, que há 30 anos não consome carne durante toda a Quaresma. A escolha não foi aleatória. Ela decidiu abdicar justamente de sua comida favorita, encarando a privação como uma penitência pessoal.
“Para substituir a carne eu como peixe, verduras, frutas e até mesmo ovo. Não gosto de ovo, mas é um período de sacrifício e acabo comendo. Parece uma provação, porque é o tempo que eu mais recebo convite para churrasco”, diverte-se a fiel, garantindo que resiste às tentações.
Mais do que uma tradição alimentar, a Quaresma segue como um convite à transformação interior e à prática concreta do bem. Os relatos mostram que a renúncia vai além da mesa: ela se traduz em oração, solidariedade e escolhas conscientes. Para muitos fiéis, o período é menos sobre abrir mão de algo e mais sobre fortalecer a fé e renovar o compromisso com o próximo.
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